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Impacto da pandemia no setor de TI

Na última sexta-feira (3), o recém-empossado ministro das Comunicações, Fábio Faria, deu a notícia que ninguém queria ouvir no setor: o adiamento do leilão do 5G no Brasil. De acordo com Faria, “tenho certeza que este ano não dará mais pra fazer este leilão. Isso fica para 2021”. A culpa, é claro, é da pandemia do novo coronavírus.

Infelizmente, o número de vítimas da Covid-19 não para de crescer por mais que a suspensão de diversas medidas de quarentena estejam indicando. Outra vez, 30 dias após nosso último artigo sobre o tema, temos um novo salto estatístico. Existe um motivo para voltarmos a esse assunto mensalmente: o impacto do dia a dia não é tão forte quanto olhar para esses números em intervalos de tempo maiores. Até 13 de junho,  houve 427.798 vítimas fatais no mundo todo. No dia 11 de julho, tinha sido registrado um total de 561.038 mortos. É um crescimento de 31% no período.

Pela primeira vez, desde que começamos a catalogar essa variação mensal de forma informal, a taxa de crescimento desceu no Brasil. Tivemos 42 mil mortos em 12 de junho e registramos agora 70.524 vítimas do novo coronavírus em 10 de julho. Os quase 400% de crescimento computados entre maio e junho foram reduzidos para 66%. É o começo de uma esperança.

Ainda assim, seus impactos serão sentidos por muitos meses, talvez anos. Além das vidas perdidas e do desgaste emocional, um evento dessas proporções tem reflexos em todos os setores da sociedade e a tecnologia da informação não seria diferente. O adiamento do leilão do 5G para o primeiro semestre de 2021 é apenas uma de várias consequências, de avanços que irão atrasar, mas também de tecnologias que acabaram emergindo.

Quarentena

O primeiro impacto derivado da pandemia foi a mudança forçada do ambiente de trabalho. Muitas empresas de tecnologias se viram obrigadas a migrar sua força produtiva de uma estrutura de escritório para o regime de home office, por questões de saúde pública. Embora esse modelo fosse praticado por várias delas previamente, a mudança abrupta pegou diversos gigantes do setor de surpresa. Com o investimento e a adoção massiva de medidas que viabilizaram o trabalho remoto, resta saber se haverá um retorno ao antigo normal com o fim da pandemia.

Uma pesquisa recente revelou que, mesmo trabalhando mais, 86% dos profissionais gostariam de continuar no home office. Respeitadas as particularidades ergonômicas de se trabalhar em casa, esse pode ser um caminho sem volta para uma realidade livre do compartilhamento do espaço físico. Segundo Fernando Mantovani, Diretor de Gerenciamento da consultoria responsável pelo levantamento, “o local de trabalho físico poderá até se tornar a alternativa, enquanto o home office vira a primeira opção. Nesse cenário, os colaboradores podem acabar indo ao escritório apenas para reuniões importantes com executivos e fornecedores, por exemplo”.

A pandemia também provocou o cancelamento de inúmeras conferências importantes de tecnologia. Embora esses eventos funcionem a princípio como grandes vitrines de novidades que podem ser anunciadas online com impacto quase similar, a grande verdade é que tais conferências também funcionam como uma importante oportunidade de parcerias e contatos que expandem o horizonte de profissionais e empresas que comparecem. Sem o networking derivado desses momentos, o compartilhamento de informações e a consequente evolução da indústria como um todo saem duramente prejudicados.

A quarentena por questões sanitárias e seus efeitos se estendem também por outros segmentos e afetam a economia como um todo. O consumo é reduzido com o fechamento de shoppings e lojas, a construção civil é afetada com a interrupção de projetos, a indústria automobilística prevê quedas de faturamento etc. Em todas essas áreas há demanda por serviços de tecnologia de informação, uma demanda que acaba diminuindo. Além disso, condições econômicas críticas levam a uma redução também na demanda de publicidade, o que impacta produtores de conteúdo que vem sua fonte de renda secar.

Cadeia de suprimentos

A médio prazo, o fechamento das fronteiras internacionais também será sentida. A Apple chegou a registrar uma queda de 10% no valor de suas ações devido à perspectiva de escassez de iPhones no mercado. O motivo? As partes necessárias para sua produção estavam vindo da China, mas sua produção permaneceu suspensa por um tempo. Outros gigantes e setores devem ser afetados da mesma forma, com o fechamento provisório de fábricas de hardware e componentes, o que eleva o preço dos produtos nas lojas.

Em 2019, a China exportou cerca de 2.5 trilhões de dólares em produtos. Esse volume inclui equipamentos de telecomunicações, computadores, componentes de máquinas de escritório, circuitos integrados, fibra ótica e mais. Além de ser a sede de várias empresas de tecnologia como Huawei, Vivo, Oppo e Xiaomi, a China também é o lar da Foxconn, uma das maiores fornecedoras da Apple. O país tem sido o maior produtor mundial de smartphones desde 2013. Para se ter uma ideia do impacto da quarentena, basta saber que 55% de todas as telas produzidas no mundo são originárias da China. A província de Wuhan, ponto de origem da pandemia, concentra sozinha nada menos que cinco fábricas de LCD.

Embora a produção esteja retornando à normalidade na China, contornado o pico da pandemia com medidas severas de contenção, os estoques de componentes irão demorar a se estabilizar a nível mundial.

A estimativa atual é que as encomendas da Apple vindas da China devam sofrer uma redução de 5% a 10% nesse trimestre, devido ao impacto na Foxconn. A Huaweii deve entregar no mercado um milhão de smartphones a menos nesse período, enquanto Oppo e Vivo esperam quedas similares e a Xiaomi está esperando uma redução de 2 milhões de dispositivos a menos.

Prevendo escassez de componentes eletrônicos, o Facebook tomou a iniciativa de reduzir a venda do Oculus Quest VR. A Nintendo também está informando atrasos para a distribuição do console Switch, controles Joy-Con e jogos, que podem ficar ausentes das prateleiras por causa da pandemia.

A expectativa de analistas de mercado é que a mentalidade das empresas de tecnologia mude no futuro a longo prazo, saindo de uma visão de cadeia de produção baseada na eficiência e nos custos baixos e indo para uma cadeia de produção baseada em resiliência, na capacidade de continuar produzindo mesmo diante de eventos catastróficos. Essa é uma tendência que já vinha sendo introduzida em anos recentes, com Samsung, Google, Nintendo e Sony transferindo fábricas para o Vietnã e a Índia para diversificar seu parque produtivo.

A hora das startups

De acordo com Ganeshan Venkateshwaran, presidente da firma de consultoria de TI Trianz: “as empresas majoritariamente digitais estão enfrentando uma demanda sem precedentes por seus serviços. É garantido que essa demanda revele as rachaduras ocultas nas redes corporativas de TI, colocando em risco a continuidade de negócios e serviços. A queda nas receitas combinada com a redução das margens levará as empresas a pensar de maneira mais enxuta e inteligente”.

Por seu tamanho reduzido e foco em soluções conectadas, muitas startups estão mais ágeis para se adaptarem para o cenário atual. Empresas muito maiores estão sentindo a necessidade premente de uma nova arquitetura de TI calcada em tecnologias mais modernas ou mesmo na terceirização de atividades para as startups. Os consumidores estão muito mais atentos e a necessidade permitiu que horizontes fossem expandidos e novas marcas e produtos fossem testados, em busca de uma experiência digital mais adaptada.

Um exemplo claro dessa tendência, acentuada pela pandemia, são as startups de serviços tecnológicos financeiros, as FinTechs, de acordo com Venkateshwaran. Essas são empresas pensadas do zero em remover a presença física do usuário das agências. Com o distanciamento social, ficar em fila de banco não é apenas anacrônico, como não recomendado pelas autoridades internacionais de saúde.

Ainda segundo o executivo, FinTechs são “menores em tamanho, o que as torna mais suscetíveis a interrupções nos negócios a curto prazo”. Entretanto, ele também afirma que “seu tamanho também funciona a seu favor. As startups da FinTech começam do zero, permitindo que elas desenvolvam uma solução FinTech moderna e de alto desempenho, sem os aborrecimentos de migrar das tecnologias antigas. Isso lhes dá uma vantagem tecnológica”.

O que vale para as FinTechs vale também para outros setores da tecnologia de informação. Gigantes costumam ser mais lentos para adotarem novas tecnologias e se adaptarem a novos ecossistemas, por causa da “natureza monolítica de sua infraestrutura de TI e serviços de idade avançada”. O resultado é que empresas maiores costumam adquirir startups menores ao invés de desenvolverem mudanças internamente.

Crescimento de setores

A pandemia deve afetar de forma positiva outros setores da indústria da informação e da tecnologia. Os seus reflexos já são plenamente visíveis em empresas de streaming e serviços de internet, na medida em que o público em quarentena consome uma quantidade muito maior de conteúdo digital. O número de assinantes da Netflix duplicou na Austrália nas primeiras semanas das restrições de atividades ao ar livre. Entretanto, ela não foi a unica a se favorecer do cenário, uma vez que a pandemia surgiu em um momento em que diversos gigantes de telecomunicações estavam iniciando investidas pesadas na área de streaming, como o Disney +.

A expectativa é otimista no setor de TI, saltando de 131 bilhões de dólares movimentados em 2020 para 295 bilhões nos próximos cincos anos. A principal razão para esse crescimento estaria na demanda explosiva por programas e plataformas de conexão social remota, como Google Hangouts, WhatsApp, Zoom e Microsoft Teams. Todas essas ferramentas de teleconferência se mostraram fundamentais, tanto para empresas manterem suas relações de trabalho com profissionais, parceiros e clientes, como para pessoas físicas manterem o contato com amigos e familiares em um momento onde o encontro físico não era recomendado. Mesmo com o fim da quarentena, são grandes as possibilidades de que o hábito tenha se estabelecido e tais recursos sejam incorporados ao cotidiano.

O avanço de tais serviços impulsiona todo um ecossistema. Não apenas Google, Zoom, Facebook ou Microsoft serão favorecidas diretamente, mas é preciso levar em consideração que essas ferramentas usufruem de uma infraestrutura complexa de servidores, datacenters, conectividade, componentes. Mesmo com sua cadeia de produção afetada, a Samsung Electronics prevê um crescimento de 23% no lucro do seu segundo trimestre do ano somente com o aumento da venda de chips para datacenters, compensando a queda na venda de smarthpones.

Esse resultado não será exclusivo dos países desenvolvidos e mesmo economias emergentes verão reflexos positivos em seu segmento de TI e telecomunicações. Nas Filipinas, por exemplo, a operadora de banda larga Converge ICT lançou seu IPO em torno de U$725 milhões na Bolsa local, alavancada pelo aumento de demanda de banda larga para home office e comércio eletrônico.

Na África, as encomendas da Loon dispararam. A subsidiária da Alphabet oferece o primeiro serviço comercial de acesso à internet 4G através do uso de balões em regiões remotas. A tecnologia, que começou quase experimental em 2103, agora está sendo procurada em larga escala. Operadoras no continente e instituições governamentais estão atrás do serviço de uma forma que não se via nos anos anteriores.

Apesar do cancelamento do leilão do 5G no Brasil, é evidente, mais do que nunca que a conectividade se mostrou um componente essencial de nossa sociedade. Essa é uma lição que irá ficar e um mercado que não irá sair dos holofotes tão cedo. A interação entre nós humanos é o verdadeiro combustível e empresas e profissionais que investirem nisso sairão fortalecidos após a pandemia.

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