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Que fim levou o Windows Phone?

Em outubro do ano passado, a Microsoft surpreendeu a audiência com um novo smartphone. Não por suas funcionalidades, não por suas características de hardware, mas por seu suporte ao ambiente Android. Era o ponto final de décadas buscando espaço com seu próprio sistema operacional móvel.

Era o fim de uma era, que seria confirmado em dezembro, com a derradeira atualização do Windows 10 Mobile. A partir daquele mês, a última tentativa da Microsoft nesse território estava entregue a sua própria sorte. Entretanto, nem sempre foi assim e vamos relembrar essa busca pelo Graal móvel e o fracasso do Windows Phone.

Pioneirismo e equívocos

É um grande equívoco afirmar que a Microsoft chegou atrasada nas plataformas móveis. Seria ignorar os esforços da empresa em dispositivos embarcados, com o Windows CE, lançado em 1996, em uma época em que Larry Page e Sergey Brin nem tinham se reunido ainda e Steve Jobs estava fora da Apple. Seria ignorar o pioneirismo de dispositivos como os Handheld, a família Palm ou o Pocket PC e o Tablet PC, mais focados no mercado corporativo.

Entretanto, a popularização da tecnologia entre os consumidores comuns não se deu através desses primeiros equipamentos. A era dos dispositivos móveis veio bem depois, com a ascensão do iPhone e dos aparelhos Android, uma mudança de paradigma que foi subestimada pela Microsoft inicialmente a um custo muito alto posteriormente.

Apenas em 2008, vinte e dois anos depois do Windows CE, dois anos depois do primeiro Android, a Microsoft reorganizou sua divisão móvel para enfrentar a súbita explosão de mercado da rival Apple com seu iPhone, lançado um ano antes. A História mostraria que a reação veio tarde demais.

Foram mais dois longos anos até o lançamento do sistema operacional Windows Phone 7, que ainda era baseado no kernel do veterano Windows CE. Entretanto, decisões foram tomadas e a Microsoft optou por abrir mão da interface por caneta stylus em troca de uma interface por toque, como a concorrência estava entregando. Era o caminho certo a ser tomado, mas a pressa em entregar uma solução e a ruptura com o que o havia antes provocou perda de compatibilidade com vários programas que já existiam em seu ecossistema. Em outras palavras, o novo sistema operacional chegava sem o legado conquistado antes e com a dura tarefa de convencer novos consumidores e desenvolvedores a adotarem o seu modelo.

Larry Lieberman, gerente de produção sênior da divisão Mobile Developer Experience, da Microsoft, sintetizou em entrevista o desastre desse primeiro momento: “se nós tivéssemos mais tempo e recursos, nós teríamos sido capazes de fazer algo em termos de compatibilidade reversa”. Suas palavras encontrariam eco em Terry Myerson, então Vice-Presidente corporativo de engenharia do Windows Phone:” com a mudança para telas de toque, longe das stylus, e a mudança para algumas escolhas de hardware que fizemos por conta da experiência do Windows Phone 7, nós tivemos que quebrar a compatibilidade de aplicativos”.

Não tinha sido o melhor dos começos, mas a situação encontraria um novo capítulo nas mãos da Nokia.

Entra a Nokia

Em 2011, a finlandesa Nokia, outra pioneira no mercado móvel, estava vendo suas vendas despencarem por conta da insistência em utilizar seu sistema operacional Symbian em meio à ascensão meteórica do Android e do iOS, com um êxodo de desenvolvedores que poderia condenar a empresa a uma futura irrelevância. Eles precisavam de um novo sistema operacional para seus aparelhos.

Do outro lado do Atlântico, a norte-americana Microsoft precisava de uma linha de hardware elegante e com nome no mercado para alavancar seu sistema operacional.

O casamento aparentemente perfeito foi anunciado em fevereiro com pompa e circunstância por seus respectivos CEOs. Para Steve Ballmer, todo-poderoso da Microsoft na época, “a parceria anunciada hoje oferece uma escala incrível, vasta experiência em inovação de hardware e software e uma capacidade comprovada de execução”. Para Stephen Elop, então Presidente e CEO da Nokia, “a Nokia e a Microsoft combinarão nossos pontos fortes para oferecer um ecossistema com alcance e escala globais incomparáveis”. “Agora é uma corrida de três cavalos”, diria esse último, em referência aos favoritos Android e iOS.

Essa parceria inicial daria origem à linha Lumia e tudo parecia indicar que talvez o mercado tivesse mesmo se tornado uma disputa entre três marcas. Ainda assim, o Windows Phone terminou o ano com 1,9% de participação de mercado após o seu lançamento.

A Microsoft daria o próximo passo na parceria em 2013, ao assimilar completamente a divisão de smartphones da empresa finlandesa. Diante das câmeras, Ballmer explicaria que essa aquisição seria “uma vitória para funcionários, acionistas e consumidores de ambas as empresas. Reunir essas ótimas equipes acelerará a participação e os lucros da Microsoft em telefones e fortalecerá as oportunidades gerais para a Microsoft e nossos parceiros em toda a família de dispositivos e serviços”.

Nos bastidores, sabia-se que os motivos eram outros: a Nokia estaria insatisfeita com o sistema operacional da Microsoft e as baixas vendas. Por um lado, a Microsoft se recusava a colaborar com o time de desenvolvimento de hardware e revelar segredos e funcionalidades de seu sistema ou ignorava pedidos de mudanças, como um maior suporte a conexões Bluetooth, populares na Europa, mas pouco usadas nos Estados Unidos. Do outro lado, era perceptível para a Microsoft que os custos poderiam ser reduzidos se a divisão móvel da Nokia fosse integrada com sua própria estrutura. Redução de custos poderia implicar em investimentos maiores e, eventualmente, um produto melhor. Ao invés do Windows Phone se adaptar às necessidades do time da Nokia, aconteceria o contrário sob o novo modelo.

As consequências dessa transição tampouco seriam tão tranquilas quanto Ballmer anunciava. Em 2013, o CEO da Microsoft afirmava que “dada nossa longa parceria com a Nokia e os principais líderes da Nokia que estão se juntando à Microsoft, prevemos uma transição suave e ótima execução”. Dois anos depois, a empresa cortaria quase 8 mil postos de trabalho, em sua vasta maioria em sua divisão móvel, comprada da Nokia.

No momento da aquisição, o Windows Phone atingiria o pico de sua participação no mercado: modestos 3.4% mas, ainda assim, seu ponto mais alto, estimulado pela produção de modelos de entrada. Daí para frente, o declínio se tornaria constante.

O futuro é 10?

Em 2015, foi a vez da marca deixar de existir oficialmente. Enquanto Windows Phone 7 e 8 pegavam carona e sugeriam uma integração com o Windows 7 e Windows 8, respectivamente, a chegada do Windows 10 representou uma nova estratégia para a Microsoft. O Windows 10 Mobile se vendia como uma versão móvel do novo sistema operacional que se tornaria o foco da empresa, oferecendo uma sinergia real entre o PC e o dispositivo móvel. A ideia era oferecer uma experiência fluida de uso, que poderia transitar entre PC, smartphone e tablet de forma quase imperceptível para os usuários.

Boa parte dos dispositivos com suporte ao Windows Phone 8.1 migrou de forma bem sucedida para a nova plataforma, mas novamente uma parte dos usuários foi deixada para trás. A Universal Windows Platform (UWP) prometia aos desenvolvedores um esforço único que seria compatível com todos os ambientes onde o Windows 10 rodava, mas isso não foi o suficiente para atrair serviços e profissionais que já estavam oferecendo suporte para iOS e Android.

A nova abordagem não funcionou como o esperado. Não havia uma base de usuários forte o bastante para garantir o interesse dos desenvolvedores; não havia aplicativos o suficiente para garantir o interesse dos usuários. Era um cenário circular, sem perspectiva de solução. Joe Belfiore, vice-presidente corporativo para Windows 10 na época, publicou em seu Twitter um desabafo: “nós tentamos COM MUITO ESFORÇO incentivar os desenvolvedores de aplicativos. Pagamos dinheiro… escrevemos o aplicativo para eles… mas o volume de usuários é muito baixo para a maioria das empresas investirem”.

Em 2016, a Microsoft demitiria o restante da sua divisão móvel e passaria a flertar com desenvolvimento de software e integração com iOS e Android. Em 2017, cessaria de todo a movimentação em torno de evoluções ou novas funcionalidades para o Windows 10 Mobile, que pararia de acompanhar as atualizações do Windows 10.

Após um quarto de século tentando, a Microsoft sucumbiu. De acordo com Satya Nadella, CEO da gigante da tecnologia, “o sistema operacional não é mais a camada mais importante para nós. O que é mais importante para nós é a experiência e o modelo de aplicativos”. O sonho de um sistema operacional próprio para dispositivos móveis se tornou um amargo capítulo na história da empresa e um de seus raros erros.

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