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A origem do Zoom

Paralelamente ao agravamento da pandemia do novo coronavírus, a nível mundial, o trabalho remoto se tornou uma alternativa para muitos profissionais de diversos setores. Esse cenário de isolamento, mas com necessidade de manter a produtividade, trouxe à tona recursos até então reservados a nichos, como Educação à Distância, home office e videoconferência.

Desde o início, uma ferramenta pareceu se destacar em todos os ambientes, se adaptando a necessidades de todos os usuários: Zoom. O programa projetado para videoconferência passou a ser uma solução essencial, apesar de haver alternativas no mercado e apesar do próprio Zoom aparentemente não estar sólido o bastante para atender a tamanha demanda, principalmente no que tange a sua segurança.

Zoom tornou-se um fenômeno de popularidade. Para muitos, ele surgiu da noite para o dia, um aplicativo desenvolvido no momento certo. Entretanto, sua história de origem é mais antiga do que parece e seu sucesso estava presente desde sua gestação.

Começos

Eric Yuan nasceu na China e se graduou em Matemática Aplicada e Ciência da Computação na Shandong University of Science & Technology. Aos 22 anos, já estava casado e procurando um mestrado para fazer. Sua principal fonte de inspiração, como o próprio executivo já revelou, era Bill Gates. Ele almejava seguir o sonho americano e se tornar um empreendedor de tecnologia. Entretanto, encontraria seu primeiro obstáculo no serviço de imigração: por um erro de tradução, seu cartão comercial registrava, em inglês, como consultor de tecnologia, ou seja, um funcionário temporário. Por causa desse equívoco, seu visto de permanência foi negado oito vezes.

Foram quinze meses tentando entrar nos Estados Unidos e sendo recusado, mas Yuan não desistiu: “eu disse para mim mesmo, ‘ok, eu vou fazer tudo que eu puder até que eles me digam que não posso voltar aqui nunca mais. Caso contrário, eu não vou parar'”.

Sua insistência deu certo e, no verão de 1997, o engenheiro de computação conseguia um emprego permanente e um visto na WebEx, uma empresa de tecnologia localizada na Califórnia. Ele não sabia ainda, mas o Zoom estava nascendo ali.

A WebEx cresceu na bolha da internet, oferecendo ferramentas de videoconferência. Seus produtos foram construídos utilizando tecnologia proprietária, um pacote batizado de MediaTone. A empresa conseguia atender clientes em uma ampla variedade de plataformas, incluindo Windows 95/98/ME, Mac OS 9 e OS X, Linux, além de Palm OS, entre outros.

Yuan programava até altas horas da noite. Ele mesmo foi o responsável direto por muitas inovações dentro da WebEx e é citado como o inventor de mais de 30 patentes durante seu tempo na empresa. Com o aumento de oferta de velocidade nas conexões de internet, a empresa prosperava junto e, em julho de 2000, foi à público com oferta de suas ações. O sucesso continuaria por outros sete anos, até a Webex ser adquirida pela Cisco por mais de três bilhões de dólares. Na época, suas soluções já tinham cerca de 2 milhões de clientes no mundo todo.A nova direção reconheceu o talento e o empenho de Yuan e o colocou no comando do grupo de engenharia, como Vice Presidente Corporativo de Engenharia.

Sob sua tutela, o time se expandiu de um punhado de desenvolvedores para uma equipe de mais de 800 engenheiros.

Entretanto, em 2010, Yuan estava insatisfeito. Em suas palavras, o serviço não era tão bom quanto poderia ser. Havia um atraso significativo na resposta das aplicações de videoconferência por conta da necessidade de se identificar a plataforma em que o usuário estava (iPhone? Android? PC? Mac?). Com usuários demais na mesma linha, a conexão terminava apresentando quedas de áudio e vídeo. Além disso, Yuan via funcionalidades que poderiam ser adicionadas ao produto e não conseguia implementar mudanças.

Antes de deixar a Cisco, passei muito tempo conversando com clientes WebEx. E sempre que conversava com um cliente WebEx, após o término da reunião, sentia-me muito, muito envergonhado porque não via um único cliente satisfeito. E eu tentei entender, por que isso? E resumi todos os problemas que todos os clientes WebEx compartilharam comigo. Finalmente, eu percebi que todos esses problemas são problemas novos.

Yuan tentou convencer seus superiores na Cisco a mudar a infraestrutura da WebEx por um ano inteiro, sem sucesso. “Cisco estava mais focada em criar uma rede social, tentar construir um Facebook empresarial”, explicou Eric Yuan. Em 2011, o executivo jogou a toalha e largou a Cisco, levando consigo cerca de 40 engenheiros para fundar sua própria empresa. O tempo lhe daria razão: “três anos depois que eu saí, eles perceberam que o que eu tinha dito estava certo”.

Crescimento e investidores

Yuan precisava de capital e pediu a amigos, incluindo alguns investidores conhecidos, que fizessem cheques de 250 mil dólares para ele contratar mais 30 engenheiros na China com o único propósito de desenvolver uma nova tecnologia de comunicação em vídeo. A tecnologia seria fundamental, o programa viria depois.

A competência demonstrada por Yuan na WebEx era o aval para essa primeira rodada de financiamento. Até mesmo Subrah Iyar, ex-CEO da WebEx, apostou nessa nova startup e contribuiu. Então, a empresa tinha o dúbio nome de Saasbee, um nome que nenhum dos investidores achava ser bom. Por sugestão de um deles, a iniciativa adotou o nome de Zoom.

O que Yuan gastava em pesquisa e desenvolvimento de uma tecnologia proprietária, ele economizava em todo o resto. Ao invés de adquirir o domínio zoom.com de seu dono na época, optou pela solução mais barata: zoom.us. Somente em 2018 a empresa finalmente compraria o endereço .com, por 2 milhões de dólares. Ainda assim, a opinião dos especialistas é que o executivo cedeu apenas para agradar consumidores em mercados que não veriam com bons olhos uma associação entre Zoom e os Estados Unidos.

Na Califórnia, a Zoom começou seus trabalhos em escritórios alugados em um prédio onde o elevador vivia quebrando. Uma câmera de vídeo, vital para testes do produto, ficava posicionada em cima de uma geladeira velha. Foram dois anos trabalhando nessas condições, enquanto Yuan procurava mais investidores.

Porém, o mercado estava em um momento tumultuado. Havia um ceticismo crescente em relação àquela empreitada que nunca completava sua tecnologia e ainda teria que competir com o Skype da Microsoft, o Hangouts do Google e o próprio WebEx da Cisco. Outras startups de videoconferência surgiam para disputar a atenção dos investidores. Ainda assim, a Zoom conseguiu uma nova rodada de capital, impulsionada pela Qualcomm Ventures e pelo co-fundador do Yahoo, Jerry Yang, em 2013.

A desconfiança mudou da noite para o dia quando Zoom foi lançado naquele ano. Ele era diferente de tudo que a concorrência tinha no momento. Seu cliente web extremamente leve era capaz de reconhecer quase instantaneamente em que tipo de dispositivo estava rodando e qual sua resolução, dispensando versões diferentes para plataformas diferentes. Uma camada de software prevenia o surgimento de bugs que poderiam surgir a partir de atualizações de navegadores. Além disso, o programa era capaz de operar com até 40% de perda de dados, o que o tornava uma solução surpreendentemente estável até para conexões de internet mais lentas.

Entretanto, não foi nenhum desses aspectos técnicos ou de infraestrutura que conquistaram o público. Era a facilidade de uso. Era a possibilidade de integrar até 15 usuários em diferentes ambientes: “Zoom.us remove a complexidade de se conectar com amigos e colegas ao oferecer uma solução de um único clique que funciona quer você esteja em um iPad usando WiFi, em um iPhone usando o Edge ou um PC conectado por Ethernet e permite todo mundo participar da conversação de forma fluida”, explicava Yuan em seu lançamento.

Além disso, Zoom oferecia qualidade de áudio e de vídeo impecáveis. Para facilitar ainda mais, apenas o responsável pela reunião precisava de uma conta no serviço, enquanto os participantes poderiam ingressar instantaneamente sem mesmo precisar baixar nada ou se logar. Ao final de 2013, o Zoom já era responsável por hospedar 5000 reuniões por dia.

A partir desse lançamento, os investidores afluíram aos borbotões. Horizons Ventures entrou com US$6.5 milhões e reza a lenda que Li Ka-shing, seu presidente e fundador, e uma das pessoas mais ricas e influentes de Hong Kong, é usuário do Zoom desde o primeiro dia. A Emergence Capital trouxe mais 30 milhões de dólares, em 2015. Depois desses, Sequoia liderou uma nova rodada de 115 milhões de dólares no começo de 2017 e a Zoom já estava avaliada em um bilhão de dólares no mercado.

Carl Eschenbach, parceiro da Sequoia declarou na época: “eu lembro de ter dito que deveria haver mil Eric Yuans no mundo, porque todo mundo com quem a gente falava conhecia Eric, dos grandes aos pequenos”.

O crescimento se torna ainda mais impressionante quando observamos que, nos primeiros anos, a Zoom nem mesmo tinha um time de marketing dedicado. Sua popularidade era orgânica, impulsionada pela satisfação dos consumidores e pelo evangelismo do próprio Yuan. O fundador da empresa insistia para que todas as reuniões de negócios com clientes, parceiros e investidores fossem realizadas pelo Zoom. A indelicadeza inicial de se recusar a aparecer pessoalmente para um encontro era rapidamente esquecida quando o Zoom mostrava suas qualidades. Yuan ia além: ele também navegava pessoalmente pela internet em busca de usuários insatisfeitos, ouvia suas queixas, oferecia soluções, implementava recursos e ia conquistando ou reconquistando adeptos.

O faturamento da empresa aumentou em 300% ao final de 2016. Ao final de 2017, havia subido mais 150%. Era a hora de explorar novos mercados.

Basquete e IPO

Novamente, a ideia que ajudou a alavancar ainda mais o Zoom partiu de Yuan.

O executivo e engenheiro é um grande fã da liga norte-americana de basquete NBA, talvez o maior de todos os fãs do Vale do Silício. Essa paixão remonta a sua chegada nos Estados Unidos, ainda em 1997. De imediato, ele se tornou um torcedor do time californiano Golden State Warriors.

Em 2016, a Zoom iniciou uma parceria de três anos com o Warriors. Essa iniciativa colocava o programa de videoconferência como a plataforma para os jogadores se comunicarem com seus fãs e, em troca, a Zoom poderia exibir seu logo em destaque no estádio Oracle Arena, de Oakland. Era uma dupla vitória para a empresa, obviamente, que ajudava a popularizar sua solução nos dois lados do acordo.

Na maioria dos casos, esse tipo de aliança fortalece a marca e sua fixação na consciência do consumidor. De acordo com Yuan, essa parceria afetou diretamente o ciclo de vendas do Zoom.

Em 2017, mais de 65.000 empresas no mundo todo dependiam do Zoom para reuniões, conferências e seminários pela web e mais de 40 milhões de pessoas já tinham usado a plataforma para participar ou organizar uma conferência. Entre seus clientes corporativos estavam nomes como Samsung, Uber, Walmart e Capital One. Além disso, a Zoom fechou o ano marcando presença em 90% das principais instituições acadêmicas dos Estados Unidos.

A Zoom chegou em 2019 com um faturamento anual de 331 milhões, com um crescimento de 118%. Era o momento perfeito para iniciar sua oferta pública de ações na Bolsa de Valores. Em 18 de abril, aconteceu o IPO. Com o preço de abertura de US$36 por ação, a empresa foi avaliada em 9.2 bilhões de dólares. No final do dia, o valor havia subido 72% de sua oferta inicial e a Zoom já havia subido para 15.9 bilhões de dólares. Eric Yuan, detentor de 20% da empresa, era agora um bilionário.

2020

A utilização do Zoom disparou “da noite para o dia”. Com a infraestrutura pronta e um produto que já estava maduro e na ponta da língua de milhões de usuários, a plataforma de videoconferência saiu de 10 milhões de reuniões diárias em dezembro de 2019 para 300 milhões em maio.

“Há mais de 1 bilhão de trabalhadores em todo o mundo”, declarou Yuan antes da pandemia. “Nosso objetivo é conectar todos eles com a plataforma Zoom. Acho que estamos no caminho certo.”

Esse cenário, entretanto, não favoreceu apenas a empresa de Eric Yuan. A Microsoft e seu Teams, assim como o Google Meet, não estão muito atrás. Teams já atingiu a marca de 75 milhões de usuários ativos por dia, um salto de 70% desde o início da crise de saúde. Em um único dia, o aplicativo da Microsoft atingiu um pico de 200 milhões de participantes de conferências. De acordo com o Google, o Meet está crescendo na ordem de 3 milhões de novos usuários ao dia e atingiu um recorde de 100 milhões de participantes em conferências no mesmo dia recentemente.

Até mesmo o WebEx recuperou terreno. A Cisco revelou no início do mês que possui um total de 300 milhões de usuários e está vendo um crescimento de novas assinaturas em torno de quase 250 mil por dia. Isso também é resultado de um tardio, mas inevitável, remanejamento interno da unidade WebEx. O veterano da Microsoft Sri Srinivasan assumiu a liderança da divisão com a missão de suplantar o Zoom. De acordo com o executivo, a rival “fez um trabalho muito bom por si mesma, com um punhado de recursos emprestados da WebEx”.

Google, Microsoft, Facebook, Cisco e outros estão na cola do trabalho de Eric Yuan e seu time de desenvolvedores. A concorrência promete ser acirrada em tempos que a distância física parece prioritária e essa competição irá estimular melhorias em todo o ecossistema. O consumidor agradece.

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