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Ada Lovelace: o cérebro que nunca morre

12 de março de 2019

“Acredito que possuo uma combinação mais singular de qualidades, exatamente ajustadas para me tornar, eminentemente, uma descobridora das realidades ocultas da natureza”.
Augusta Ada Lovelace

Augusta Ada Byron nasceu em Londres, em 10 de dezembro de 1815, fruto da união do poeta Lord Byron e Annabella Milbanke, uma herdeira de 23 anos comprometida com causas progressistas. Dizem as más línguas que foi um casamento de conveniência para Byron, afundado em dívidas por seu estilo de vida libertino.

De fato, os pais de Ada não poderiam ser mais opostos. Byron escrevia poesias, desrespeitava as normas sociais de seu tempo e era um ludista, um ferrenho opositor do uso de máquinas no mercado de trabalho. Enquanto isso Annabella Milbanke era uma mulher educada, religiosa e aficionada pelos avanços da Revolução Industrial. A inevitável separação aconteceu quando Ada tinha apenas 5 semanas de idade, devido à descoberta de uma (de muitas) traições de Byron.

Ada nunca mais veria seu pai novamente. Até mesmo o retrato de Byron em sua casa era guardado a sete chaves e sua mãe apenas permitiria que a filha conhecesse o verdadeiro rosto de seu pai aos 20 anos. Anabella teve a infelicidade de descobrir que o nome Augusta era uma homenagem à meia-irmã de Byron, com quem o poeta tinha tido um caso polêmico na época. Daí para frente, recusou-se a chamar a filha de Augusta e Ada entrou para a História como seu nome mais conhecido.

Byron morreria longe da Inglaterra, em território grego, com a idade de 36 anos. Sua filha Ada tinha apenas 8 anos. De acordo com um dos criados de Byron, que estava presente no momento da morte do poeta, o pai ausente amargou essa distância imposta: “Oh, minha pobre criança! – minha querida Ada! Meu Deus, eu poderia ter visto ela! Dê a ela a minha bênção”, teriam sido suas últimas palavras.

Temendo que o estilo de vida do pai tivesse de alguma forma passado para a filha, uma possível “loucura” hereditária, Anabella cercou a pequena Ada de um exército de governantas e tutores. Ainda menina, aprendeu história, literatura, línguas, geografia, música, química, costura, taquigrafia e matemática.

Quando Ada tinha 11 anos, ela foi com sua mãe e uma comitiva em uma turnê de um ano pela Europa. Quando retornou, estava definitivamente tomada pelo pensamento crítico e já em tenra idade escreveu e ilustrou Flyology, um livro amador sobre “voologia”, tentando entender e imitar o vôo dos pássaros com máquinas movidas a vapor.

Logo em seguida, Ada contraindo sarampo (e talvez encefalite) – e acabou ficando de cama e com problemas de saúde por 3 anos. Sua saúde nunca mais seria a mesma e a sombra da enfermidade a perseguiria por toda a vida.

Ao completar 17 anos, com a saúde restabelecida por enquanto, a jovem partiu para Londres para o inevitável ritual de ser apresentada à sociedade. Em 5 de junho de 1833, em um desses eventos sociais obrigatórios para jovens de sua época, foi apresentada a Charles Babbage, de 41 anos. Era o começo de um relacionamento profissional que se transformaria em dos marcos da história da computação e o inicio da programação.

Ada Byron aos 17 anos

A Máquina Diferencial

Babbage e a astrônoma Caroline Herschel haviam iniciado um projeto para produzir tabelas para sua nova Sociedade Astronômica. O esforço mecânico de verificar as mesas de tabelas manualmente teria levado Babbage a imaginar uma solução diferente: “eu desejo a Deus que essas mesas tivessem sido feitas a vapor!”, teria afirmado, relatam os registros. O cientista imaginava uma forma de mecanizar aquele trabalho, que até o momento era realizado por equipes de pessoas, usando avaliação de polinômios com o método das diferenças. Babbage queria uma Máquina Diferencial.

Esse dispositivo sonhado por Babbage era um mecanismo de diferença que pudesse ser configurado para calcular qualquer polinômio até certo grau usando o método das diferenças e, em seguida, passar automaticamente pelos valores e imprimir os resultados. Ao mesmo tempo que conseguiria automatizar o processo, eliminando o exaustivo trabalho manual, ele também removeria o risco de erro humano das tabelas astronômicas, onde uma pequena falha poderia tomar grandes proporções.

A ideia de Babbage era tão revolucionária que a Sociedade Astronômica lhe concedeu uma medalha e o governo britânico em 1823 concordou em financiar a construção do projeto. A Máquina Diferencial se tornaria a grande obsessão da vida de Babbage e também colocaria Ada Lovelace na História.

Ao ser apresentada aos primeiros protótipos do dispositivo, Ada passou a focar seus estudos em Matemática. Em sua busca por mais conhecimento, entrou em contato com  Mary Somerville, tradutora de Laplace e uma conhecida divulgadora cientifica de sua era. Essa paixão pela Matemática continuou e Ada chegou a ensinar a matéria para as filhas de uma das amigas de sua mãe. Em cartas, ela estabeleceu o que chamou de “Correspondência Matemática Sentimental” com suas alunas e acreditava que essa correspondência poderia ser “futuramente publicada sem dúvida para a edificação da humanidade, ou gênero feminino”.

Enquanto isso, Babbage subestimava o talento de sua futura parceira e tentava interessá-la em dispositivos menos importantes, como o “automato” Dama de Prata,  um brinquedo que costumava impressionar as damas da sociedade em festas. A adolescente não se deu por vencida e buscava aprimorar seu leque de conhecimento, ora com Babbage, ora com Somerville, separadamente e juntos. Com o tempo, Babbage reconheceu a inteligência da jovem e passou a discutir temas mais complexos, incluindo as dificuldades enfrentadas na construção da Máquina Diferencial.

Surge Lovelace

Em 1835, aos dezenove anos, Ada Byron foi apresentada a William King, de 30 anos, amigo do filho de Mary Somerville. A afinidade foi imediata e os dois se casaram no mesmo ano. King foi nomeado conde após serviços prestados à Coroa Britânica e sua esposa adquiriu o título de Condessa de Lovelace, forjando de vez o nome pelo qual seria conhecida para sempre.

Nos anos seguintes, Ada deu à luz a três filhos e boa parte do seu tempo foi dedicado às tarefas do lar e da maternidade, embora ela não tenha se afastado dos estudos de Matemática. Um de seus instrutores no período foi Augustus De Morgan, primeiro professor de Matemática na University College London, autor de vários livros didáticos sobre o tema. De Morgan seria seu mestre de Cálculo nessa época. De acordo com registros deixados, os estudos a satisfaziam: Ada tinha um forte apreço por suas habilidades matemáticas e seus professores enfatizavam tal talento.

A mente de Ada não parava e antecipava vários problemas que seriam centrais para a computação, em um século em que ainda nem se sonhava com computadores ou máquinas resolvendo raciocínios. Em uma das inúmeras cartas trocadas com Babbage, ela  imaginou, por exemplo, se não seria possível que o jogo de paciência pudesse “ser colocado em uma fórmula matemática e resolvido”.

Do outro lado da balança, Babbage se frustrava com os obstáculos de seu projeto. Uma década de trabalho não havia produzido resultados viáveis. Havia ferramentas, havia instrumentos de precisão que surgiram na busca pela Máquina Diferencial, mas a própria máquina ainda estava distante da realidade. Uma briga com o engenheiro encarregado da construção do aparelho terminou com Babbage perdendo todos os esquemas de criação, inclusive aqueles que ele mesmo tinha desenhado.

A Máquina Analítica

Os reveses não derrubaram Babbage e o cientista acreditava ter uma ideia ainda melhor: em vez de criar uma máquina que apenas calculasse as diferenças, ele imaginou uma Máquina Analítica que suportasse toda uma lista de tipos possíveis de operações, que poderiam ser feitas em uma sequência arbitrariamente programada. Por definição, um computador.

Inicialmente, o dispositivo interpretaria somente fórmulas pré-determinadas, mas Babbage foi adicionando novos recursos, para diferentes casos de uso, através de condicionais. Nesse ponto, ele teve o salto conceitual que o destacaria para sempre: Babbage descobriu como controlar as etapas da sua máquina usando cartões perfurados. Era um método que se tornaria emblemática nos anos iniciais dos computadores, mas cuja inspiração tinha vindo de Jacquard, em 1801, que inventara o sistema para especificar padrões de tecer em teares mecânicos.

A convite do governo italiano, Babbage palestrou sobre a Máquina Analítica em Turim, e as anotações do evento foram realizadas pelo engenheiro militar Luigi Menabrea. Menabrea, por sua vez, acabaria se tornando primeiro-ministro da Itália décadas depois e também faria contribuições importantes para a matemática da análise estrutural. Em outubro de 1842, Menabrea publicaria um artigo em francês baseado em suas anotações da palestra, se tornando a principal prova documental do projeto de Babbage, que jamais publicou nada relacionado ao seu próprio projeto.

Mas caberia a Ada Lovelace a maior de todas as contribuições: ela decidiu traduzir o artigo de Menabrea e enviá-lo para uma editora britânica. Há registros de que Babbage já havia solicitado a Ada que escrevesse de seu próprio punho sobre a Máquina Analítica, mas ela respondera que a ideia não lhe tinha passado pela cabeça. O artigo de Menabrea disparou uma sucessão de eventos que entrariam para a História: Ada não se limitara a traduzir, mas acrescentou extensivas notas sobre o artigo, terminando por sobrepô-lo em todos os sentidos.

Diagrama para a computação de números de Bernoulli nas notas de Lovelace.

As notas da matemática são cerca de três vezes maiores do que o artigo original e incluem, em detalhes completos, um método para calcular uma seqüência de números de Bernoulli com a Máquina, que poderia ter sido habilmente executado corretamente se o dispositivo de Babbage tivesse sido construído. Baseado neste trabalho, é consenso entre os especialistas que Lovelace seja considerada a primeira programadora de computador e seu método é reconhecido como o primeiro programa de computador do mundo.

O ocaso de Lovelace

Lovelace sabia que tinha criado algo grande e imaginava para si mesma uma promissora carreira em Matemática. Ela enviou cópias do seu trabalho para sua mãe e escreveu: “ninguém pode estimar o problema e o trabalho interminável de ter que revisar a impressão de fórmulas matemáticas. Esta é uma perspectiva agradável para o futuro, pois suponho que muitas centenas e milhares dessas fórmulas sairão de minha caneta, de uma forma ou de outra”.

Ela também se imaginava trabalhando lado a lado com Babbage, em posição igualitária. Em outra carta para a mãe, Lovelace escreveu: “ainda não tenho certeza de como o negócio de Babbage vai acabar… Eu escrevi para ele … muito explicitamente; afirmando minhas próprias condições … Ele tem uma idéia tão forte da vantagem de ter minha caneta como sua serva, que ele provavelmente cederá; embora eu exija concessões muito fortes. Se ele concordar com o que eu proponho, provavelmente serei capaz de mantê-lo fora problemas; e trazer sua Máquina para a consumação, (que tudo o que vi dele e de seus hábitos nos últimos 3 meses, faz com que eu dificilmente espere que isso aconteça, a menos que alguém realmente exerça uma forte influência coercitiva sobre ele). Ele está descuidado além da medida e desconexo às vezes”. Para Lovelace, seu papel era claro: orientar Babbage no que precisasse ser feito pelos próximos anos, até o sucesso compartilhado.

Seu entusiamos pela ciência nunca esteve tão forte. No mesmo período, Lovelace interagiu com Michael Faraday, que se referia a ela como a “a estrela em ascensão da Ciência”. Ada planejava elaborar outras resenhas, de cientistas como Whewell e Ohm, e acreditava que pudesse efetivamente se tornar a “profetisa da ciência” de uma forma geral.

Sua saúde acabou lhe aplicando um golpe fatídico. Durante meses, buscou vários médicos, atrás de uma cura para um mal que ninguém conseguia identificar. A sombra que a perseguira por tantos anos, desde a infância, estava mais próxima.

Enquanto isso, embora Ada e Babbage tivessem um bom relacionamento social e trocassem correspondências, a Máquina Analítica não era o centro das atenções. Seu criador estava próximo do fim de suas finanças e o governo britânico se recusava a investir mais no projeto. Babbage chegou a cogitar a construção de uma máquina de jogo da velha, para impressionar o público e arrecadar dinheiro. A própria Ada o aconselhou a não perder o foco e levantou a possibilidade de terem uma entrevista com o príncipe Albert em busca de patrocínio para os mecanismos, um encontro que nunca aconteceu.

Última imagem de Ada Lovelace, já padecendo do câncer que a mataria.

Um ano depois, veio o diagnóstico: Ada Lovelace estava sendo consumida por um câncer. Seus últimos três meses de vida foram de intenso sofrimento, finalmente falecendo em 27 de novembro de 1852, aos 36 anos, a mesma idade de seu pai quando morrera. Ada havia feito de Babbage o executor de seu testamento. E, contrariando tudo que sua mãe havia lhe imposto em vida, Augusta Ada Byron finalmente se reuniu com o pai, sendo enterrada por sua vontade expressa no jazigo da família Byron ao lado do poeta.

Florence Nightingale, pioneira da enfermagem e amiga de Ada, escreveu o obituário: “ela não poderia ter vivido tanto tempo, não fosse pela tremenda vitalidade do cérebro, que não morreria”.

Renascimento

Babbage ainda vivera por mais 18 anos depois de Ada, morrendo em 1871. Ele tentou trabalhar na Máquina Analítica novamente em 1856, mas não fez grandes progressos. Por décadas, seus esforços foram praticamente esquecido.

Mas não se pode deter a Ciência e computadores mecânicos, em diferentes países e contextos, continuaram a ser desenvolvidos, eventualmente dando lugar aos eletromecânicos e, por fim, aos eletrônicos. Quando os processos de computação começaram a ser estudados e seus conceitos estabelecidos na década de 1940, a idéia de computação universal surgiu novamente, mais claramente no trabalho de Alan Turing em 1936. Graças a Turing e seus contemporâneos, as máquinas de Babbage e as notas precisas de Ada foram redescobertos.

Quase um século antes, ela havia sido pioneira: quando Ada escreveu sobre a máquina de Babbage, ela queria explicar o que fazia da maneira mais clara – e para fazer isso ela olhava a máquina de maneira mais abstrata, com o resultado de que ela acabou explorando e articulando algo bastante reconhecível como a noção moderna de computação universal.

Hoje, com computadores e softwares ao nosso redor, a noção de computação universal parece quase óbvia: é claro que podemos usar software para computar o que quisermos, quem ousaria questionar isso? Mas em uma época em que o próprio conceito de eletricidade nos lares era inimaginável e mesmo as mais sofisticadas máquinas precisavam de supervisão constante de seus operadores, foi necessário alguém de visão para enxergar a abstração de um conjunto de instruções matemáticas que pudessem ser interpretadas de forma livre de erros. Ada Lovelace foi a primeira pessoa a vislumbrar com alguma clareza o que se tornou um fenômeno definidor de nossa tecnologia e até de nossa civilização: a noção de computação universal.

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One Response

  1. Nossa que história hein, este artigo está de parabéns vocês são demais…poderiam colocar isso no youtube.

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