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Adeus a Mandic, um dos “pais” da internet brasileira

“Melhor errar depressa que acertar devagar”. Essa frase da sabedoria popular era uma das favoritas de Aleksandar Mandic e não é pra menos: ele viveu e prosperou sob a tutela desse lema, saindo na frente em quase todas as iniciativas que fez. Houve um tempo em que o nome Mandic se tornou praticamente um sinônimo de internet no Brasil. Infelizmente, o grande e genial Mandic nos deixou no início do mês, após uma dura luta contra o câncer, aos 66 anos.

De origem humilde, seus pais eram imigrantes que vieram tentar a sorte no Brasil. Sua mãe nasceu na Bielorrússia e seu pai na Sérvia. Até hoje é possível encontrar pessoas que utilizaram serviços de Mandic e acreditam que o nome era uma sigla e não um sobrenome. Porém, Mandic (ou Александар Мандић, em sua grafia original) tinha nome, sobrenome e uma grande paixão por inovar.

Depois de se formar em uma escola técnica, sem nunca passar por uma universidade, ele trabalhou por 18 anos na Siemens, envolvido com automação industrial. Seu destino e o destino da internet brasileira mudariam quando ele resolveu conectar dois telefones em sua casa.

No começo eram dois telefones

Ligando o telefone principal de casa com o telefone extra de sua esposa, ele pretendia montar uma BBS, sigla de Bulletin Board System, antigo sistema de informações eletrônicas por conexões telefônicas. A ideia original era poder se comunicar com o trabalho na Siemens, mas a gambiarra não funcionou e ele trouxe para casa.

Mandic não desistiu e resolveu abrir o sistema para amigos, em 1990. Os amigos chamaram os amigos que chamaram mais amigos e logo estava fundada a Mandic BBS, precursora do gênero no país. Tinha apenas 60 megabytes de capacidade e rodava primordialmente em um PC 286. Porém, essa brincadeira já havia reunido 10 mil usuários cinco anos depois, que conversavam entre si, deixavam mensagens em tópicos de discussão e até consultavam um email interno, antes mesmo da internet “gráfica” que temos hoje.

Em 1994, a World Wide Web estava vindo para o Brasil. A novidade prometia uma miríade de páginas com gráficos e texto, conectando computadores do mundo todo. Aleksandar Mandic foi convidado pelo então superintendente de informática da Fapesp, Demi Getschko, para a negociação dos primeiros endereços IP de internet do Brasil. No ano seguinte, Mandic largou o BBS para lançar o primeiro provedor de acesso à web em terras brasileiras.

Abrindo as portas

Com o nome de MANDIC INTERNET S.A, em seus quatro anos, o provedor foi fundamental para consolidar a expansão da internet comercial no Brasil.

Mandic, em 1997

Em 1999, com 110 mil usuários, o provedor foi vendido para a empresa argentina Impsat. Até nesse momento, Mandic foi visionário: a infame bolha da internet explodiria meses depois, quebrando muita gente. “Se não tivesse vendido o negócio naquele momento, teria perdido meu dinheiro”, afirmou em 2012, em entrevista para o jornal Estado de São Paulo.

Um ano após a venda, Mandic estava de volta para revolucionar o mercado de provedores com uma proposta ousada: internet gratuita para todos. Lado a lado com Nizan Guanaes e Matinas Suzuki Jr., ele fundou o serviço iG, onde assumiu o cargo de vice-presidente. O objetivo era funcionar como um provedor que não cobraria mensalidade de seus assinantes, explorando outros modelos de negócio, como publicidade e comércio eletrônico, que estavam começando a emplacar no mundo todo.

Era uma aposta arriscada porque dependia de um volume bastante elevado de usuários e seria impraticável para um provedor pequeno. Como sabemos, deu certo, deu muito certo. “Quando lançamos o iG, em 9 de janeiro de 2000, nós tivemos 30 mil cadastramentos em um só dia e chegamos ao fim do mês com 800 mil usuários. Com 800 mil usuários, você consegue ganhar dinheiro. Então, o iG foi pensado para ser grande, porque pequeno não funcionaria”, explicou.

O sucesso avassalador do iG mudou a face da internet no país. Para pequenos provedores que cobravam assinatura mensal era praticamente impossível competir com o preço cobrado pelo iG de exatos zero reais. A partir desse momento, o usuário se tornou livre da cobrança mensal e apenas grandes provedores que aderiram ao modelo permaneceram no mercado.

Antes do Gmail

A passagem de Aleksandar Mandic pelo iG seria curta. Em 2002, o executivo já estava perseguindo outro sonho: email ilimitado. Em uma época em que os serviços de email eram marcados por oferecerem poucos megabytes de armazenamento para seus usuários, mais uma vez o pioneiro estava sendo apressado, antecipando a explosão do Gmail em dois anos.

Até o sistema de convites, que marcou a chegada do serviço do Google, já estava valendo no chamado Mandic Mail. No lançamento, apenas uma centena de clientes selecionados a dedo teve acesso ao serviço do visionário. Para quem conseguia criar uma conta no Mandic Mail eram ofertados caixa postal ilimitada e possibilidade de transferência de arquivos, também sem limites. Ao atingir 50 mil usuários, as inscrições seriam encerradas.

Porém, é importante lembrar que o Gmail estrearia dois anos depois oferecendo recursos similares, mas de forma gratuita. Por mais pioneiro que Mandic fosse, ele não contava com o aporte financeiro quase infinito do Google, então o Mandic Mail era pago e não custava pouco. A assinatura anual era de R$ 350.

Na época, ele definiu o modelo de negócios da seguinte forma: “nosso modelo é dirigido para ganhar dinheiro com os serviços que vamos prestar ao cliente, não com investidores ou a realização de IPOs”. Mandic também aproveitou para alfinetar a concorrência:

“Muitos provedores de internet e e-mail, como o Hotmail, vendem os dados dos seus clientes para empresas, que os utilizam para fazer propaganda. Isso lota a caixa postal e é uma chateação para os usuários. Na Mandic, vou garantir sigilo total dos dados dos nossos clientes. Isso será registrado em cartório. O nosso usuário poderá ter acesso ao e-mails de qualquer lugar do Brasil”

A partir da infraestrutura do Mandic Mail, a empresa evoluiu para se tornar uma fornecedora de soluções de nuvem: a Mandic Cloud Solutions. Isso aconteceu antes mesmo da tecnologia de nuvem se popularizar.

A Mandic Cloud Solutions acabaria sendo vendida por 100 milhões de reais em 2012, para o fundo americano Riverwood Capital. Mandic investiria parte desse montante na compra de ações da própria Riverwood e assumiria o cargo de conselheiro administrativo.

Compartilhando senhas!

Aos 60 anos de idade, com tantas contribuições para o cenário da internet no Brasil, Mandic poderia ter curtido uma justa e merecida aposentadoria. Entretanto, as ideias ainda fervilhavam em sua mente e ele não conseguia parar de enxergar oportunidades.

Dessa inquietação, mas também da vontade de facilitar a vida dos usuários, surgia o aplicativo Mandic Magic (atual Wi-Fi Magic), um aplicativo gratuito que é uma rede social de compartilhamento de senhas Wi-Fi.

A ideia brotou de uma forma completamente prosaica. Diante da instabilidade das redes de telefonia móvel no país e a necessidade de consumo de dados, Mandic preferia utilizar redes Wi-Fi disponíveis sempre que possível. Então, ele percebeu um fato curioso: não havia uma “lista” de redes. Como ele conta:

“Eu comecei a anotar as senhas de redes públicas, já que viajo muito. Queria fazer um programinha, mas não achei ninguém para programar para mim. Um dia, um amigo meu, o Eduardo Mauro, disse que programaria. Ele fez um programinha e no primeiro dia foram dois downloads, um dele e um meu. Depois de alguns dias, durante a manhã, o Eduardo disse que o app havia sido baixado 40 vezes. No final do dia eram mil downloads. Fomos a um hotel beber champanhe para comemorar. Quando acabamos o Eduardo checou e o dia ia fechar com três mil downloads.”

Em 2014, o Mandic Magic já contava com 15 milhões de usuários compartilhando dicas e senhas de Wi-Fi por todo o Brasil. Segundo o empresário, Apple e Microsoft tentaram comprar a tecnologia, mas ele não quis vender. Sua meta era fazer o “WhatsApp brasileiro”, mas não chegou a tanto.

Uma vida curiosa…

A importância de Aleksandar Mandic chegou ao exterior e na cultura pop. No sexto episódio da quarta temporada de Sillicon Valley, os protagonistas tem uma reunião marcada com o CEO de uma importante empresa de tecnologia chamado George Mandic. Esse Mandic da ficção rejeitou a proposta de aplicativo criado pelo time da série…

Mandic também era capaz de ações audazes fora da internet. Certa vez, ele comprou um anúncio de capa no jornal Folha de São Paulo e ele foi publicado. A provocação estava no fato do jornal fazer parte do mesmo grupo que controlava o provedor de acesso UOL, seu principal concorrente no mercado.

Porém, Mandic também conheceu a derrota. Sua curta carreira política começou e terminou em 2010, quando se candidatou a deputado federal pelo DEM. Ele tentou se vender como “candidato 2.0”, um slogan maroto para uma trajetória que irá muito maior do que isso. Porém, sua plataforma também era visionária: ele prometia Wi-Fi gratuito em locais públicos e nas principais estradas brasileiras. Ele dizia que “Marechal Rondon fez rodovias, e Mandic fará Infovias”. Sem usar panfletos de papel, apostou em blogs, redes sociais e até em um “santinho eletrônico” enviado para eleitores por smartphones. Apesar dos esforços, conseguiu menos de onze mil votos e não se elegeu. “Respondi a mais tweets e atendi a mais telefonemas do que tive votos”.

… uma morte que deixará saudades

“Meu pai foi em busca do sonho dele. E a minha mãe assumiu a bronca. Quando ele chegava do trabalho, eu já estava dormindo. E quando eu acordava, ele já tinha saído. Como criança era difícil, mas, como adulto, eu acho muito bonito. A história está aí. Ele fez a diferença no mundo”, contou Axel Mandic, 31, um dos filhos do pioneiro.

Sim, ele fez e fez com pressa, sem medo de errar. Obrigado por tudo, Aleksandar Mandic.

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