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Como a Kodak quase inventou a câmera digital décadas antes de sua época

Fundada em 1888, a Eastman Kodak Company reinou soberana e foi sinônimo de fotografia por quase um século. Bastou um erro de cálculo e algumas décadas para uma geração inteira esquecer a marca e sequer saber o significado da expressão “momento Kodak”.

Mas tudo poderia ter sido diferente. Você, eu, as pessoas ao redor, todos nós poderíamos estar registrando nossas fotos digitais em máquinas Kodak, subindo as imagens para o Kodakgram e compartilhando as melhores poses e selfies em alguma rede social com Kodak no nome. Talvez a empresa fosse líder também no mercado de smartphones se tivesse conseguido direcionar seu potencial nos anos 90 ou pelo menos ser a fornecedora oficial de tecnologia fotográfica para gigantes como a Apple, Samsung ou LG.

Essa realidade paralela onde a Kodak não desapareceu dos holofotes começou quando Steven Sasson, um jovem engenheiro de 24 anos se juntou à empresa em 1973. Inicialmente, como quase todo funcionário novo, a ele foi conferida uma tarefa de baixa responsabilidade: testar um dispositivo que capturava um padrão de luz bidimensional através de um sensor e convertia em um sinal elétrico.

Em entrevista para The New York Times, Sasson lembra que o projeto não era considerado importante dentro da empresa. Poucas pessoas sequer sabiam que ele estava trabalhando naquilo. Ele acreditava que era uma tarefa frívola para evitar que ele causasse confusão em alguma outra área. Ele deveria avaliar a utilidade prática daqueles dispositivos.

Steve Sasson – 1975

E, de fato, não havia muita em uma análise superficial. O sinal elétrico convertido se dissipava muito rapidamente e não havia o que se fazer com aquilo. Mas então, Sasson teve uma ideia: e se fosse possível transformar aquele sinal elétrico em números? Ele teria uma versão digital de uma imagem bidimensional. Ele teria uma fotografia digital. Uma ideia leva a outra e o engenheiro se deparou com outro problema: como armazenar aqueles dados e, principalmente, como recuperá-los depois, voltando a ter uma imagem que um ser humano consiga entender?

Para o primeiro desafio, Sasson acoplou um gravador de fita magnética ao dispositivo original. Para resolver o segundo, conectou a parafernália a um televisor. Antes mesmo do primeiro computador chegar ao mercado, antes mesmo da Apple sair daquela mítica garagem, o jovem engenheiro plugou alguns fios, algumas placas de circuito, um par de lentes de uma câmera Super 8, o sensor que convertia a imagem analógica para impulsos digitais, o tal gravador de fita, 16 baterias de níquel-cádmio e plugou aquilo tudo em um aparelho de TV.

Era tosco. Mas funcionava.

Sasson tinha perfeita noção do que havia criado: “Aquilo era mais do que apenas uma câmera. Era um sistema fotográfico que demonstrava o conceito de uma câmera totalmente eletrônica que não usava filme e não usava papel, e nenhum produto consumível de forma alguma para capturar e exibir imagens fotográficas”.

Em outras palavras, era uma sentença de morte para toda a cadeia de produção da Kodak, uma empresa que naquela época tinha o monopólio das câmeras, dos filmes fotográficos, dos dispositivos de flash, dos quiosques de revelação, do papel usado nos laboratórios e até dos produtos químicos empregados no processo.

Ainda assim, Sasson exibiu seu invento em diversas reuniões da Kodak, para executivos do departamento técnico, do marketing e do setor de negócios. E então para os seus chefes. E os chefes daqueles chefes. Quanto mais subia na cadeia hierárquica da empresa, mais se dava conta de que tinha algo grandioso em mãos. Em cada reunião, ele demonstrava a geringonça tirando uma foto digital dos presentes e exibindo na televisão.

Não era grande coisa para os padrões de hoje. O processo de capturar a imagem demorava apenas 50 milisegundos, mas a gravação em fita se arrastava por longos 23 segundos. A fita precisava ser ejetada do gravador, passada para um assistente, que colocava no decodificador que passava a imagem para a TV. Tinha apenas 100x100px de resolução e não oferecia cores.

Mas para os padrões da época, era algo aterrador. Era 1975, o processo de revelação era uma ciência secreta praticada em laboratórios escuros e o usuário poderia demorar dias até receber suas fotos de volta. E Sasson estava ali, então com 26 anos, discutindo um processo que demorava segundos. E ainda mencionou a possibilidade de transmitir o resultado pelas linhas telefônicas, antecipando o compartilhamento online de fotos em quase duas décadas.

O invento foi engavetado sem dó nem pena.

Steve-Sasson-with-Camera

O criador e a criatura. O aparelho original agora está em exposição no Museu Smithsonian.

Não foi apenas o medo da revolução que a fotografia digital provocaria no monopólio da Kodak. Havia também uma farta dose de falta de visão. “Eles estavam convencidos de que ninguém jamais iria queria ver fotos em um televisor. Impressão vinha nos acompanhando por mais de 100 anos, ninguém estava reclamando de fotos impressas, elas eram muito baratas, então por que alguém iria querer ver suas fotos em uma tela?”. Era a ideia certa, no momento errado.

E Sasson sabia disso também. Segundo seus cálculos, seriam necessários 2MP para uma foto digital atingir o mesmo nível de detalhe de uma foto tirada com um filme colorido de 110mm. A evolução tecnológica necessária para otimizar o processo e chegar a esse nível de qualidade demoraria de 15 a 20 anos. Esse era o tempo que a Kodak tinha para se preparar para liderar o mercado ou se armar para a competição.

O engenheiro não era cego: “cada câmera digital que fosse vendida seria uma venda perdida para uma câmera de filme (…) Esse era o argumento”. Mas ele enxergava algo que mesmo os executivos de marketing ou negócios não viam: “o problema é que muito em breve você não seria mais capaz de vender filmes – e essa era a minha posição”. O máximo que a empresa fez com o conceito foi registrar uma patente em 1978.

patent-1977

Patente da Kodak

Apesar da recepção fria, Sasson recebeu carta branca para continuar trabalhando nos métodos de digitalização e nas tecnologias de compressão de imagem e cartões de memória desde que o engenheiro não comentasse com ninguém sobre o que estava desenvolvendo ou mesmo demonstrasse a câmera fora das instalações da Kodak.

Onze anos se passaram nos porões da Kodak. Em 1989, Sasson e seu colega Robert Hills construíram o que viria a ser a primeira câmera digital acabada. Era um produto, com 1.2 MP, lente profissional, compressão de imagem e cartão de memória. Bastava colocar o protótipo em produção para que a Kodak fosse a pioneira e formasse um novo e digital monopólio.

E é nesse ponto que nosso universo diverge do paralelo. Lá, a Kodak assumiu a liderança e hoje todos postam no Kodakgram as fotos que tiram em seus smartphones iKodak ou algo assim. Aqui, o departamento de marketing vetou o invento de Sasson. Sua câmera acabada jamais saiu dos escritórios da empresa. Ele tinha enterrado mais de uma década de sua vida naquilo. “Aquela câmera nunca viu a luz do dia”, relembra frustrado o engenheiro.

Ironicamente, a patente de 1978 ainda renderia bilhões de dólares para a Kodak. Ainda que a empresa não tenha entrado no mercado de câmeras digitais até ser tarde demais para se tornar relevante, o conceito registrado lá atrás garantiu que a empresa recebesse royalties de todos os fabricantes até 2007, quando a patente expirou.

Em 2009, Steven Sasson, riu por último e foi condecorado pelo presidente Barack Obama com uma medalha de National Medal of Technology and Innovation, em uma cerimônia na Casa Branca.

Steve Sasson - Obama

Mas a Kodak não tinha motivos para comemorar. Em 2012, a empresa abriu falência. Ela conseguiria se recuperar, dissolvendo diversas divisões de negócios, demolindo 80 prédios, demitindo 27 mil funcionários e vendendo todas as suas outras patentes relacionadas às descobertas de Sasson para uma aliança formada por empresas como Apple, Google, Facebook, Amazon, Microsoft, Samsung, Adobe Systems e HTC, as mesmas que agora dominavam o mercado de fotografia digital. O filme estava definitivamente morto e enterrado.

“Era apenas uma questão de tempo e ainda assim a Kodak nunca absorveu isso”, lamenta Sasson.

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