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Histórias do Hotmail

Em Maio de 2013, a Microsoft descontinuou o Hotmail e suspendeu a criação de novas contas com esse endereço de correio eletrônico. Foi um prodigioso feito de logística em que todos os usuários foram transferidos para o serviço Outlook, transportando mais de 150 milhões de gigabytes de dados em apenas seis semanas. Entretanto, também foi o ponto final de um legado que remontava aos primórdios da world wide web comercial.

Ou será que não?

No começo, era um trocadilho horrível

O Hotmail havia sido lançado originalmente em 1996 por Jack Smith e Sabeer Bhatia e atendia pela pitoresca grafia “HoTMaiL”, uma tentativa de brincar com a abreviatura HTML. Sua interface original era um fiel retrato daquele humilde início:

Naqueles tempos primevos, dinossauros como AOL, CompuServe, MSN e Netscape Navigator dominavam o cenário de uma internet acessada por rede discada e traziam opções de email associados a seus serviços. No ambiente corporativo, grandes empresas conectavam seus servidores online para trazer email para seus funcionários. Um serviço de email gratuito, aberto para todos os usuários, acessível de qualquer ponto do planeta era uma ousadia que apenas dois nomes estavam oferecendo: Rocketmail (que se tornaria o Yahoo Mail depois) e o HoTMaiL.

Um ano depois de sua estreia, a criação de Smith e Bathia já acumulava 9 milhões de inscritos e estava no lugar certo e na hora certa para chamar a atenção de outro titã, chamado Microsoft.

A gigante de Redmond estava determinada a tomar a web de assalto, ainda que com certo atraso em relação à concorrência. A internet havia se tornado a prioridade das estratégias da Microsoft e o executivo Marco DeMello foi convocado por ninguém menos que Bill Gates com a missão de desenvolver um serviço de webmail que pudesse ser oferecido a todos os usuários Windows gratuitamente. Como ele mesmo se recorda, DeMello não escondeu a dura realidade: “eu especifiquei, embora fosse óbvio, que nós não poderíamos criar nosso próprio serviço de webmail no tempo que Bill tinha pedido”. Com todos os argumentos em mãos, ele saiu daquela reunião com um cheque de 450 milhões de dólares assinado por Bill Gates e comprou o Hotmail.

Em dezembro de 1997, aquela foi a maior compra de uma empresa de internet em dinheiro vivo até aquele momento.

Integração de opostos

DeMello não foi responsável apenas pela decisão, mas também pela complexa missão de integrar o Hotmail no ecossistema da Microsoft. E isso significa encaixar uma arquitetura baseada em Unix, com servidores rodando em FreeBSD no front-end e Sun Solaris em SPARC no back-end, em um ambiente que era puro Windows, dentro de uma cultura que estava acostumada a produzir suas próprias soluções internamente e hostilizar a comunidade de código aberto. Mais do que migrar o Hotmail, era uma questão de equilibrar visões opostas da tecnologia nos anos 90.

O executivo recorda que, pura e simplesmente, o Windows NT Server não estava à altura da tarefa. Era um fato inegável e um baque forte na mentalidade Microsoft de ver as coisas. Novamente, ele foi irredutível:

Havia um monte de coisas que estávamos cutucando – da segurança ao gerenciamento de memória e até o próprio stack da rede TCP – que estávamos comparando – ‘é o que obtemos do Unix, é isso que estamos recebendo do NT e é por isso que não podemos migrar ainda’. Sempre foi, ‘não, nós não podemos migrar ainda’.

Por conta das dificuldades, DeMello conta que seu time levou três anos de desenvolvimento lado a lado com os responsáveis pela arquitetura do Windows NT para chegar no Windows 2000 e ter um sistema capaz de dar conta do recado. “Primeiro foi sobre a questão de escalabilidade – estamos falando do Internet Information Server, da pilha de rede, da pilha e da memória TCP e de como ela foi gerenciada – e também da segurança de acessar pastas locais diretamente do processo executável”, recorda o executivo. Essa sintonia fina entre a equipe responsável pelo Hotmail e a equipe responsável pelas versões de servidor do Windows se estenderia por anos e pode-se afirmar sem sombra de dúvida que o Hotmail ajudou a impulsionar o desenvolvimento da plataforma.

Nós tínhamos compilações que foram criadas para testar o IIS – o Hotmail sempre foi um teste. O mantra era se ele passasse no teste do Hotmail, você poderia fornecê-lo a qualquer pessoa – ele se tornaria um teste de estresse para o IIS.

Embora a face web do Hotmail tenha migrado nesses anos iniciais, o back-end, a parte de banco de dados e armazenamento só começaria a migração para Windows Server e SQL Server em 2004, quase sete anos após a aquisição do serviço. Foram necessários três anos para que essa estrutura saísse do Solaris para o Windows. Mas DeMello se orgulha de ter atendido a um pedido pessoal de Bill Gates: nenhuma caixa de email, nenhuma conta poderia ser perdida no processo e foi o que aconteceu.

Segurança acima de tudo, pero no mucho

Essa estrada porém, não foi livre de percalços. Em 1999, menos de dois anos depois da Microsoft assumir o comando do serviço, o Hotmail foi atingido por uma falha de segurança. Cada uma das então 50 milhões de contas de email estava vulnerável devido a um bug de script e qualquer invasor poderia acessar as mensagens de qualquer pessoa apenas usando a senha “eh”.

Era uma brecha tão brutal que sites foram criados onde tudo que um curioso precisava fazer era escrever o endereço de email que desejava invadir e o acesso era garantido. Há quem diga que a falha de segurança permaneceu ativa por dois meses antes da Microsoft descobrir e lançar uma correção, há quem diga que aquela seria uma porta dos fundos esquecida pelos desenvolvedores originais. DeMello, mesmo quase duas décadas depois do incidente, se recusa a comentar sobre a vulnerabilidade. Ainda que não esteja mais vinculado à Microsoft, ele reitera que o Hotmail é seguro e foi aprimorado desde o início com foco em proteção. “Colocamos muita energia e esforço em segurança e privacidade”, afirma o executivo. “Não foi uma reflexão tardia. Acho que construímos o sistema desde o início com foco em segurança e privacidade”, completa.

Apesar disso, havia limitações financeiras e físicas. Rodar toda a plataforma sobre protocolos HTTPS com encriptação SSL era inviável nos anos 90 e início dos anos 00. Tais barreiras de proteção eram utilizadas somente para proteger credenciais e login dos usuários. Todo o resto do tráfego era executado sobre HTTP convencional. Ou seja, embora fosse tecnicamente impossível interceptar o processo de autenticação e descobrir a senha de um usuário, uma vez logado, suas mensagens poderiam ser interceptadas por um ataque de homem no meio. DeMello justifica a decisão:

Apenas a parte de autenticação exigia que usássemos aceleradores de hardware na época. E isso tinha um custo muito alto – milhares de dólares por cartão, que você precisava executar se usasse o Unix ou o Windows Server. Não era possível executar toda a infraestrutura naquela época em SSL.

Com a evolução dos servidores e redução dos custos, esse panorama mudou e DeMello admite que hoje em dia seria impensável rodar qualquer coisa em HTTP sem encriptação.

A concorrência se estabelece, mas não importa mais

Entretanto, o Hotmail falhou em acompanhar a concorrência. Gmail e Yahoo empurraramm aquilo que se espera de um serviço de email para patamares nunca antes alcançados e a Microsoft, novamente, demorou para se adaptar às necessidades do mercado. Paralelamente, o próprio Hotmail sofreu um desgaste progressivo de popularidade devido a sucessivas mudanças de marcas. De MSN Hotmail para Windows Live Mail, para Windows Live Hotmail… era claro que a Microsoft não sabia o que fazer com a marca e precisava integrá-la também ao seu império.

Em contrapartida, o Hotmail evoluía nos bastidores, longe dos olhos do público. Todo o front-end foi reescrito praticamente do zero. O que antes era código criado para Solaris, com C++ e Perl, foi refeito em C# e ASP.NET, se tornando uma vitrine para o que poderia ser feito com tecnologia de casa. O time do “Hotmail”, fosse lá que nome o departamento de marketing inventasse para ele, estava afiado e foi pioneiro em estratégias de nuvem que se tornaram fundamentais para o desenvolvimento de soluções matadoras como Office 365 e Azure.

Se ter um webmail estava perdendo forças no mercado, o futuro estava nas nuvens e o Hotmail já estava lá muito antes de todo mundo. Sem que ninguém se desse conta, o aprendizado do Hotmail seria essencial na guinada seguinte da Microsoft.

O Hotmail morreu para que o Outlook.com surgisse e ganhasse força. Entretanto seu legado permanece e está presente muito além de milhões de endereços @hotmail.com.

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