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A história esquecida de como a LG quase venceu o iPhone

Os pioneiros nem sempre levam os louros da vitória. O LG KE850, também conhecido como LG Prada, foi um smartphone anunciado pela primeira vez em dezembro de 2006, um mês antes do iPhone. Chegou ao mercado em maio do ano seguinte, novamente um mês antes do iPhone. Tinha recursos bastante similares. Entretanto, até hoje é lembrado como um luxuoso clone do iPhone e a LG perdeu a relevância que uma vez teve no cenário dos dispositivos móveis. Como isso foi possível?

É reconhecido que um dos principais paradigmas tecnológicos quebrados pelo iPhone foi a mudança de uma tela sensível ao toque de forma resistiva para uma tela sensível ao toque de forma capacitiva. Era a diferença entre usar um acessório (como a até então dominante stylus) e utilizar os próprios dedos para operar o aparelho móvel, saia a precisão, mas entrava uma bem-vinda praticidade. De uma geração para outra, tornou-se possível usar o celular com uma mão só e de forma mais ágil.

O fato é: o LG Prada lançou essa tecnologia primeiro. Seu design e seu protótipo foram exibidos nove meses antes do iPhone chegar nas lojas. Visualmente, os dois aparelhos eram até parecidos, ao ponto de Woo-Young Kwak, diretor do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Dispositivos Móveis da LG acusar textualmente a Apple de plágio. Em suas palavras, “nós consideramos que a Apple copiou o telefone Prada depois que o design foi apresentado no  iF Design Award e ganhou o prêmio em setembro de 2006”.

A LG tinha naquele momento bala na agulha para ofuscar a Apple, interromper a ascensão meteórica do iPhone e chegar em 2020 como um dos principais pilares do mercado de dispositivos móveis.

Vantagens do Prada

Já no lançamento, o LG Prada trazia suporte ao protocolo Bluetooth. Ainda que a tecnologia já estivesse presente em dispositivos móveis desde 2001, a LG adotou o modelo Bluetooth 2.0, que praticamente havia acabado de ser lançado e ainda não havia se disseminado. O iPhone também viria com o mesmo suporte, mas, pelo menos a LG não ficou para trás nesse sentido.

O LG Prada já trazia também suporte a cartões microSD, um formato cuja regulamentação havia sido aprovada apenas em 2005, saindo na frente de muitos concorrentes e estendendo o espaço de armazenamento do dispositivo para até 2GB. Surpreendentemente, a Apple optou por não trazer os cartões microSD para o iPhone, uma decisão estratégica mantida até hoje.

Entretanto, o grande diferencial do LG Prada em relação ao iPhone original era mesmo sua câmera. Tanto o dispositivo da LG quanto o aparelho da Apple ofereciam resolução máxima de 2MP, mas as semelhanças paravam por aí. Apesar de, em termos de hardware, serem equivalentes, o Prada oferecia recursos que o iPhone não tinha para os amantes de fotografia, em 2006, incluindo flash e captura de vídeo.

Enquanto usuários de iPhone só tinham a opção de mirar e apertar o botão para bater uma foto e nada mais, os donos de um LG Prada tinham acesso a uma série de ferramentas que poderiam soar primitivas para os padrões de hoje, mas traziam liberdade de configurações para se obter a foto perfeita. O dispositivo da LG permitia a mudança de resolução, ajuste do temporizador de exposição, ligar ou desligar o flash, foco automático ou manual, controle de iluminação e até mesmo uso de filtros.

É fácil entender que a Apple optou por uma experiência de fotografia mais prática, voltada para o usuário leigo, mas quem curte ajustes finos podia obter uma resposta muito superior no LG Prada.

Os erros do Prada

Infelizmente, as desvantagens do LG KE850 eram muito mais numerosas e impactantes que suas vantagens. De imediato, era evidente que a abordagem da empresa não era oferecer um produto popular: a associação com a grife italiana Prada tinha como objetivo colocar no mercado um celular de luxo.

Embora a Apple, de longa data, coloque no mercado produtos envoltos em uma aura de sofisticação e mais caros que produtos similares, o LG Prada era para poucos, para bem poucos. O iPhone chegou nas prateleiras custando US$499 em sua versão mais básica. Em contrapartida, o LG Prada não saía por menos de US$849.

É fácil acusar a Apple de vender uma marca, uma ideia. Mas é impossível acusar a empresa de disponibilizar produtos de qualidade inferior. Paga-se mais caro não apenas por um símbolo de status mas também por dispositivos com qualidades intrínsecas.

Lamentavelmente, a LG estava vendendo um celular abaixo da média, com o selo da Prada. Enquanto o iPhone trazia uma estrutura robusta de metal e vidro, o LG Prada era basicamente plástico, com baixa resistência, não muito diferente do padrão de smartphones muito mais baratos.

Essa discrepância ia além do aspecto estrutural. O LG Prada era tecnicamente inferior por dentro em suas especificações.

O iPhone trazia uma bateria de 1400mAh, o smartphone da LG oferecia somente 800mAh. Era evidente o impacto que isso tinha na autonomia dos dispositivos.

O LG Prada também tinha um excelente motivo para oferecer suporte a microSD: seus míseros 8MB de armazenamento interno, uma fração ridícula dos 4GB oferecidos pelo iPhone mais básico.

Embora smartphones com suporte a rede Wi-Fi já existissem desde 2004, em pleno 2006, o LG Prada não trazia a possibilidade de se conectar com redes sem fio que seguissem esse protocolo, limitando sua conectividade à rede 2G vigente na época. O dispositivo da Apple, lançado um mês depois, era compatível com Wi-Fi.

O iPhone também possuía uma tela ligeiramente maior: eram 3.5 polegadas contra as 3 polegadas do LG Prada.

O grande erro do Prada

Apesar de suas várias desvantagens, o LG Prada poderia ter ganhado uma sobrevida, como uma opção de luxo no mercado de smartphones se não fosse por uma falha matadora. Ao contrário do que Steve Ballmer pensava na época e muitos historiadores ainda avaliam hoje, a tela sensível ao toque não foi o grande diferencial do iPhone: foi o seu sistema operacional, que aproveitava essa tela.

O LG Prada se tornou uma prova prática de que interface do usuário é um divisor de águas na experiência. Apesar do seu pioneirismo em alguns aspectos, a LG errou ao não investir adequadamente um sistema operacional que fizesse uso de todo o potencial do novo método de input.

É importante lembrar que, em 2006, não havia Android. O primeiro dispositivo móvel com suporte ao OS que bateria de frente com a Apple só chegaria dois anos depois. A LG estava sem nenhuma opção a não ser usar um sistema operacional desenvolvido internamente.

Nesse momento, a empresa cometeu o erro que a Apple não cometeu. Ao invés de desenvolver do zero uma solução pensada nas telas de toque capacitivas, a LG “adaptou” um sistema operacional que já existia para telas de toque resistivas (oriundo do Nokia). Ou seja, se determinadas decisões de design funcionavam com uma stylus, deveriam funcionar também com um dedo humano.

Esse sistema operacional feito em Flash era impreciso e complicado de se navegar. Para redigir um texto, o usuário era obrigado a adotar o obsoleto padrão T9, em que se selecionavam as letras pelo número de toques em um teclado virtual numérico. Se parece complicado para os dias de hoje é porque era complicado mesmo, uma herança dos primórdios dos dispositivos móveis, que se tornou ainda mais incongruente quando a Apple trouxe um teclado alfanumérico completo para a tela.

A LG tentaria corrigir essa deficiência no LG Prada II, mas não com uma interface melhorada ou um novo sistema operacional. A solução encontrada foi embutir um mini-teclado físico no dispositivo, o que o tornou mais pesado e desajeitado que seu rival.

A superioridade do iPhone se manifestava também na oferta de recursos e de softwares. Desde o primeiro aparelho, já havia suporte a zoom com multitouch, navegador web integrado e até mesmo um aplicativo dedicado ao YouTube, ferramentas que o LG Prada não trazia.

O fim de uma trajetória

A linha Prada voltaria para um último suspiro em 2012, com o LG Prada 3.0, lançado exclusivamente no mercado oriental e Europa. O novo dispositivo já trazia suporte ao Android 2.3 e chegou a ter uma campanha publicitária milionária.

O marketing do novo dispositivo envolvia o ator Edward Norton e a modelo Daria Werbowy, em um ensaio fotográfico do premiado David Sims. Porém, já era tarde demais para deter a Apple ou mesmo marcar uma posição melhor da LG no cenário.

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