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O que aconteceu com o Netscape?

20 de fevereiro de 2018

“Site melhor visualizado com Netscape Navigator”, acompanhado do ícone do timão de um barco antigo. Se você se lembra dessa combinação, isso significa não somente que você está na internet há muito tempo como também acompanhou a maior de todas as batalhas por seu domínio.

Durante o alvorecer da web, o Netscape foi o navegador padrão e desfrutou uma hegemonia breve, mas inesquecível. De onde ele veio? Como se tornou um gigante? E, principalmente, por que ele desapareceu?

Ascensão

No início da navegação no que viria a se tornar a web que conhecemos hoje, havia apenas textos e links. Não havia scripts, não havia plugins, não havia frames, não havia nada, a não ser uma coleção de documentos interconectados entre si, os hipertextos. Isso começou a mudar com a popularização do Mosaic, considerado por muitos como o primeiro navegador a exibir imagens na mesma tela que o texto. Desenvolvido pela Universidade de Illinois em conjunto com o National Center for Supercomputing Applications (NCSA), o Mosaic foi o berço de uma revolução.

Um de seus criadores, Marc Andreessen, se graduou na Universidade de Illinois em 1993 e se mudou para a ensolarada Califórnia, onde faria contato com Jim Clark, engenheiro fundador da Silicon Graphics. Longe da sua empresa, Clark enxergou em Andreessen a possibilidade de um novo e poderoso produto: um navegador que impulsionaria a web em uma nova direção, mais gráfica, mais interativa e com alta lucratividade. Clark entrou com o capital inicial e Andreessen com sua expertise na criação de browsers e juntos formaram a  Mosaic Communications Corporation.

Da esquerda pra direita, Jim Clark e Marc Andreessen.

A Universidade de Illinois desaprovou o uso do nome “Mosaic” e a empresa foi rebatizada para Netscape Communications. Logo depois, vinha a primeira versão do seu navegador homônimo.

O Netscape Navigator foi lançado em um cenário em que literalmente não havia concorrência. Vastamente superior ao seu antecessor, o Mosaic, o navegador era o primeiro produto “comercial” nesse mercado. Para todos os fins, Netscape era gratuito para uso doméstico, mas usuários corporativos deveriam adquirir uma licença paga. Na prática, era gratuito para todos mesmo.

Mas a ausência de um modelo sólido de negócios não impediu que um ano depois as ações da empresa chegassem às bolsas de valores com força total. A web era uma nova fronteira e a Netscape parecia ter o mapa desse território, o que ajudou a catapultar seu valor de mercado para 3 bilhões de dólares no primeiro dia das negociações dos papéis.

Enquanto isso, a Microsoft, a gigante que se tornaria a principal rival da Netscape, ainda acordava para a web. Reza a lenda que no mesmo ano em que Andreessen estava indo para a Califórnia, Steve Ballmer, braço direito de Bill Gates e segundo em comando na empresa na época, voltava da Europa furioso. Segundo testemunhas, após uma série de encontros com clientes do Windows, Ballmer descobriu que eles desejavam que o sistema operacional tivesse alguma forma de suporte ao protocolo TCP/IP, uma forma de se conectar com a internet.

“Eu não sei o que é isso”, teria dito Ballmer a seus subordinados. “Eu não quero saber. Mas meus clientes estão gritando por isso. Façam acontecer”. A Microsoft nem mesmo tinha um servidor de internet em suas instalações ainda, mas estava despertando para o potencial daquela nova fronteira.

A Netscape já estava na frente e seus fundadores profetizavam um futuro onde o próprio sistema operacional se tornaria obsoleto, com aplicações rodando na internet e o navegador funcionando como cliente de acesso. E esse navegador seria o Netscape Navigator. A ameaça do fim dos sistemas operacionais era a gasolina que faltava para incendiar os ânimos na Microsoft, que, finalmente se movimentou para correr atrás do prejuízo.

Em 1995, a Netscape não apenas valia bilhões no mercado financeiro como também dominava 90% do mercado de navegadores. Foram dois anos de domínio absoluto, mas a guerra se agigantava no horizonte.

Queda

Sem que ninguém soubesse até então, a Microsoft girou seu leme com força total para a internet. Um memorando interno assinado por Bill Gates (PDF) é um retrato do despreparo da empresa e do momento exato em que ela despertou:

Agora atribuo à Internet o maior nível de importância. Neste memorando eu quero deixar claro que nosso foco na Internet é crucial para todas as partes do nosso negócio. A Internet é o desenvolvimento único mais importante que chegou desde que o IBM PC foi introduzido em 1981. É ainda mais importante do que a chegada da interface gráfica do usuário (GUI). (…) Eu encorajo todos na equipe executiva e seus subordinados diretos a usar a Internet. (…) Também são de interesse as formas como nossos concorrentes estão usando seus sites para apresentar seus produtos. Eu acho que o SUN, o Netscape e o Lotus fazem algumas coisas muito bem.

O memorando também era basicamente uma sentença de morte para os planos da Netscape:

Um novo concorrente “nascido” na Internet é o Netscape. Seu navegador é dominante, com 70% de compartilhamento de uso, permitindo que eles determinem quais extensões de rede irão capturar. (…)  Eles atraíram uma série de operadores de rede pública para usar sua plataforma para oferecer informações e serviços de diretório. Temos que combinar e vencer as suas ofertas, inclusive trabalhando com MCI, jornais e outros que estão considerando seus produtos. (…) Precisamos descobrir recursos adicionais que nos permitirão avançar com os clientes do Windows. Precisamos transferir todo o nosso valor acrescentado da Internet do pacote Plus para o próprio Windows 95, assim que possamos, com umo objetivo principal de fazer com que os OEMs enviem o nosso navegador pré-instalado.

Inicialmente, a Microsoft licenciou a tecnologia do Mosaic para fazer as primeiras versões do Internet Explorer, mas seu navegador havia sido recebido com frieza. O Internet Explorer 3, oferecido junto com a versão turbinada do Windows 95 sacudiu levemente o mercado.

Enquanto isso, a Netscape dividiu seu produto em dois: enquanto os usuários domésticos recebiam o Netscape Navigator tradicional, para os clientes corporativos era desenvolvida a suíte Netscape Communicator, englobando navegador, email e outras funcionalidades. Logo, a confusão entre os produtos se estabelecia e o produto desenvolvido para as empresas falhava justamente na missão de cativar esse público. Com mais recursos, o navegador, antes incensado por sua simplicidade, se tornou lento e propenso a travamentos.

Com a Microsoft avançando e a Netscape se complicando nos bastidores, o resultado da batalha parecia mais ou menos claro. Mas o Netscape ainda experimentava uma eufórica vantagem, que não se deixou abalar nem mesmo com uma pegadinha: antes do lançamento do Internet Explorer 4, desenvolvedores da Microsoft plantaram um logo enorme de seu navegador no campus da rival. A resposta da Netscape veio na mesma moeda: derrubaram o ícone do Internet Explorer e colocaram seu mascote, um dinossauro, em pé sobre ele segurando uma placa com a porcentagem de mercado: 72% x 18%.

Para a Netscape parecia que o jogo jamais iria virar, mas a alegria duraria pouco. Em 1998, a empresa cometeu um novo erro. Um erro que garantiria a eternidade no mercado, mas ironicamente também seria fatal: colocaram seu código-fonte em domínio público. O processo atrasou o desenvolvimento de evoluções do Netscape Communicator por um ano, o tempo necessário para a Microsoft incorporar o Internet Explorer em seu sistema operacional e tomar o mercado de assalto em uma manobra que chegaria a render problemas nos tribunais.

A ação de oferecer o Internet Explorer como navegador padrão em seus sistemas operacionais foi questionada como anti-competitiva e houve o risco da Microsoft ser separada em duas empresas: uma responsável pelo Windows e o Office e outra administrando o Internet Explorer e sua divisão web. Anos foram gastos, milhões em advogados, bloqueios foram realizados e empresa acabou sendo obrigada a retroceder da estratégia. Mas já era tarde demais para o Netscape: o Internet Explorer havia tomado o pódio.

Não que a Netscape tampouco precisasse de um carrasco: decisões equivocadas abundavam debaixo de seu próprio teto. Se antes a empresa havia determinado padrões para a evolução da web, beirando a arrogância em vários aspectos, em outros momentos falhou em acompanhar o que se tornou padrão. Sua insistência em não oferecer suporte às emergentes folhas de estilo CSS, por exemplo, provocou lentidão em páginas, devido à necessidade de converter o padrão que todo mundo estava usando para o nativo JavaScript Style Sheets.

Ocaso

Em 1998, a AOL arrematou a Netscape por 4.2 bilhões de dólares. A manobra tinha como objetivo livrar a gigante da internet da dependência de um navegador controlado pela Microsoft, mas sua estratégia ia pouco além disso, se é que existia uma estratégia.

Felizmente, no mesmo ano, a comunidade open source se reuniu em torno da Mozilla, batizada em homenagem ao codinome original do Netscape, e trabalhou em um novo navegador. Ironicamente, o código que a própria Netscape abriu viria a ser processado fora de seus escritórios, revitalizado, rebatizado e utilizado dois anos depois para dar a luz ao Netscape 6.0, uma tentativa da AOL de reacender a competição com o Internet Explorer.

Já era uma guerra perdida a essa altura do campeonato: em 2000, a Microsoft detinha 95% do mercado de navegadores, uma liderança jamais vista antes e jamais vista depois. Os planos de Bill Gates haviam se concretizado.

Outros dois anos se passariam até que a AOL lançasse o Netscape 7 aos ventos. Em 2003, a gigante desmantelou completamente a equipe de desenvolvimento interna, licenciou o motor da Mozilla, o mesmo do emergente Firefox, e contratou os serviços da canadense Mercurial Communications para a produção do Netscape 8 e 8.1, em 2005 e 2007. Insatisfeita com os resultados, a AOL ainda assumiria o manto uma última vez, montaria uma equipe própria de desenvolvedores e lançaria o Netscape 9. Mas, simultaneamente, a AOL anunciava o que todos já esperavam: aquela era a última versão do navegador que um dia governara a web. O Internet Explorer detinha então 77.4% do mercado, o Firefox possuía 16.0% e o Netscape amargava 0.6% da preferência dos usuários.

Em 20 Fevereiro de 2008, o navegador parou de receber qualquer tipo de atualização. Há exatos dez anos, se encerrava uma era.

Quanto ao Internet Explorer, sua supremacia logo seria ameaçada pelo Firefox, descendente daquele mesmo código-fonte do Netscape compartilhado anos atrás. A guerra dos navegadores seria reacendida, o Netscape, de certa forma, seria vingado, mas essa já é uma outra história.

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