Categorias

O problema da câmara de distorção da realidade das redes sociais

Assim que o Reino Unido votou pela saída do país da União Europeia na sexta-feira (24/04), o especialista em tecnologias e impacto social Tom Steinberg procurou em suas redes sociais algum exemplo de pessoas comemorando os resultados.

Não encontrou nenhum.

No meu pedaço de internet que frequento, o resultado foi idêntico: mesmo aqui no Brasil, era praticamente um consenso que os eleitores do Reino Unido cometeram um equívoco. Ainda assim, as urnas não mentem. Então, onde estavam os eleitores do “Brexit”?

Para Steinberg, eles existem. Tanto que o resultado da votação foi o que foi. Mas são invisíveis para muitos de nós. Por causa do que se convencionou chamar de “bolha de filtro” das redes sociais, em seu apelo:

Eu estou procurando ativamente através do meu Facebook por pessoas celebrando a vitória do Brexit, mas a bolha de filtro é TÃO forte, e se estende por TÃO longe em direção a coisas como a busca customizada do Facebook que eu não consigo encontrar ninguém que esteja feliz apesar do fato de que mais da metade do país está claramente jubilante hoje e apesar do fato que eu estou ativamente procurando ouvir o que eles tem a dizer.

Esse problema de câmera de eco é agora TÃO severo e TÃO crônico que eu apenas posso implorar para qualquer amigo que eu tenho que realmente trabalhe para o Facebook e outras significativas mídias sociais para urgentemente falar para seus líderes que não agir sobre esse problema agora significa apoiar ativamente e financiar a ruptura do tecido de nossas sociedades. Simplesmente por que eles não são como anarquistas ou terroristas – eles não estão fazendo essa ruptura de propósito – não é desculpa – o efeito é o mesmo, nós estamos criando países onde uma metade não sabe nada a respeito da outra metade.

Está nas mãos de pessoas como Mark Zuckerberg fazer algo a respeito disso, se eles forem fortes o bastante e inteligentes o bastante para trocar um pouco do seu valor para os acionistas pelo bem-estar de nações e do mundo como um todo.

Essa “guerra civil” das redes sociais não é um fenômeno britânico ou americano. É global. Existe no Brasil também, onde boa parte da população ficou dividida entre um espectro do pensamento político e outro, a possibilidade de diálogo entre as partes se tornou quase impossível e aqueles que lutam por um caminho do meio são pejorativamente chamados de “isentões”. Quem está de um lado é saturado dia e noite por informações, verídicas ou não, que corroboram seu pensamento. Quem está do outro lado, idem. Ambas as facções tem a plena convicção de que tem a solução para a corrupção e os outros problemas do país e demoniza, quando não hostiliza abertamente, a outra.

Ironicamente, ou não, o Facebook acredita que conhecer o diferente, que propagar a informação, pode funcionar como um antídoto contra o extremismo, mas seus múltiplos mecanismos de filtragem criam redomas invioláveis que distorcem a realidade ao redor de quem não consegue enxergar além de sua caverna. O mesmo Facebook acusado de manipular seu feed de notícias de acordo com critérios pessoais de sua equipe de jornalistas, embora negue. Mas o filtro está ali, de uma forma ou de outra, seja no bloqueio daqueles com quem não concordamos seja através de algoritmos que privilegiam mensagens similares àquelas que curtirmos anteriormente, o resultado é idêntico: uma câmera de eco que repete o mesmo discurso, sem divergências.

Esse problema não é exclusivo do Facebook. Está presente em quase todas as redes sociais e até mesmo nas buscas personalizadas do Google. Eli Pariser, autor do livro Filter Bubble, já apontava esse dilema em sua apresentação de 2011 no TED: “existe uma consequência não intencional. Nós ficamos aprisionados em uma ‘bolha de filtro’ e não somos expostos a informações que poderiam desafiar ou ampliar nossa visão de mundo”.

Nesses últimos cinco anos, as redes sociais, e, particularmente o Facebook, se tornaram uma das principais janelas de compreensão do mundo para muitas pessoas. E essa compreensão é ditada por aquilo que o filtro, a câmera de eco, considera realidade.

A Verdade Está Lá Fora (Não Nas Redes Sociais…)

Não por acaso temos um ressurgimento de teorias de conspiração e rumores nocivos não verificados ganhando vulto de verdades incontestáveis. Renee DiResta, da ONG Vaccinate California, narra o nascimento e o crescimento dos movimentos anti-vacinação nos Estados Unidos, sustentados justamente pela propagação de teorias infundadas nas redes sociais:

Uma vez que um usuário se junte a um único grupo no Facebook, a rede social irá sugerir dezenas de outros naquele tópico, assim como grupos focados em tópicos tangenciais que pessoas com perfis similares também se juntaram. Isso é um negócio inteligente. Entretanto, com conteúdo não checado, isso significa que uma vez que a pessoa se junte com um único grupo focado em conspirações, ela é automaticamente direcionada por algoritmos para uma pletora de outros. Junte-se a um grupo anti-vacinação, e suas sugestões irão incluir grupos contra alimentos geneticamente modificados, patrulhas de vigília de chemtrails, adeptos da teoria da Terra Plana (sim, de verdade), e grupos de “cura natural do câncer”. Ao invés de tentar tirar o usuário dessa insanidade, o mecanismo de recomendações apenas o empurra mais para dentro. Nós já estamos bem além de meras bolhas de filtros partidárias e entrando no reino de comunidades entrincheiradas que experimentam sua própria realidade e operam com seus próprios fatos.

Ela aponta também a teoria absurda no início da epidemia de Zika, em que diversos grupos no Brasil defendiam que a doença não era a responsável pelos casos de microcefalia em crianças nascidas de mães contaminadas pelo vírus. Para muitos, o governo federal estaria ocultando causas mais sinistras, como uma campanha de vacinação acontecida na região Nordeste. Foi necessário que autoridades globais preocupadas com a propagação da doença corroborassem aquilo que os cientistas brasileiros já apontavam para que as teorias perdessem sua força.

O que também explica a imensa pressão popular pela liberação do uso da fosfoetanolamina como tratamento de combate ao câncer, sem que qualquer teste adequado fosse realizado e contra a opinião da imensa maioria da comunidade científica.

Em 2013, a população da cidade de Portland, no estado norte-americano do Oregon, votou contra a fluorificação da água, uma prática realizada há décadas em diversas partes do mundo e que ajuda na saúde dentária. Mais uma vez, impulsionados por rumores e fatos infundados propagados em redes sociais: muitos acreditaram que a prática causa câncer (e é cientificamente comprovado que não), outros iam além e defendiam que o uso do flúor faz parte de uma estratégia fascista de inibição química para pacificar a população (não há nem o que dizer sobre isso…).

Teorias de conspiração existem desde que o mundo é mundo, é claro, e são explicadas por diferentes fatores, desde a falta de confiança nas lideranças do mundo até desvios de personalidade. Mas um dos fatores mais fortes é conhecido como “viés de confirmação“: “a tendência de se lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais. É um tipo de viés cognitivo e um erro de raciocínio indutivo. As pessoas demonstram esse viés quando reúnem ou se lembram de informações de forma seletiva, ou quando as interpretam de forma tendenciosa. Tal efeito é mais forte em questões de forte carga emocional e em crenças profundamente arraigadas. As pessoas também tendem a interpretar evidências ambíguas de forma a sustentar suas posições já existentes”.

Em uma sociedade da informação, onde a quantidade de fatos disponíveis é a maior em toda a História da Humanidade, o alcance imediato a provas materiais e pesquisas fundamentadas deveria funcionar como um repelente para determinadas convicções e posicionamentos. Mas não é o que acontece: o filtro das redes sociais (e até dos mecanismos de busca) nada mais é que um colossal, programático e inescapável viés de confirmação, criado para e pelos usuários.

Consequentemente, no mundo mágico de nossas câmeras de eco, estamos sempre com a razão. E quem está do lado de fora, é o inimigo.