Google versus Microsoft
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Google versus Microsoft: quem vai vencer na Inteligência Artificial?

Trabalhar acompanhando as tendências de tecnologia por quase duas décadas significa ter passado pormodismos que movimentaram milhões de dólares, mas não emplacaram como se esperava. Por um lado, tivemos netbooks, televisores 3D, Microsoft Kinect, Hoverboards e outros dispositivos que falharam em alcançar seu público. Do outro lado, temos ideias que passaram a fazer parte de nosso cotidiano, porém não da forma revolucionária como parecia que seria, como drones ou impressão 3D, e outras ideias que causam polêmicas sobre sua eficácia, como NFTs ou Metaverso.

De um jeito ou de outro, a tecnologia se movimenta através de promessas, de soluções avassaladoras que causarão disruputuras em mercados. Lembro claramente quando abri o Google pela primeira vez e me impressionei não apenas com sua velocidade absurdamente superior em relação à concorrência como também com a qualidade de seus resultados. Talvez tenha sido a última verdadeiramente grande revolução de que fui testemunha.

Até surgirem as Inteligências Artificiais. Ainda que o tema seja periférico ao mundo de TI desde tempos imemoriais e um Santo Graal perseguido por pesquisadores de forma incansável, houve um salto inegável em 2022, tanto na percepção do público como nas suas aplicações no nosso dia a dia. LaMDA, do Google, foi classificada (erroneamente) como consciente. ChatGPT, da OpenAI, ganhou manchetes. O que estamos vendo nesse momento é muito provavelmente o maior ponto de ruptura no uso de uma tecnologia, desde a ascensão das redes sociais, uma movimentação capaz de levantar empresas e derrubar outras em batalhas titânicas por território dentro do coração e das mentes dos usuários.

O que diferencia uma tendência de uma mera buzzword que circula por mercados investidores é a adesão do público. A buzzword traz promessas, principalmente o conceito equivocado de que sua constante repetição irá provocar seu sucesso na base da força bruta ou a tentativa, muitas vezes frustrada, de se aplicar suas ideias em todos os setores. “Quando se tem uma martelo, tudo na sua frente se torna um prego”, dizia o ditado popular. O que nos levou, por exemplo, a uma profusão bizarra de produtos “quânticos”, de sabonetes a palestras, em 99% dos casos sem qualquer relação com a Física que se ensina nas academias.

Entretanto, uma tendência é abraçada pelo público. É quando uma solução encontra uma necessidade, mesmo uma necessidade cuja existência sequer era conhecida antes do surgimento da solução. Foi assim com a interface por toque dos iPhones ou o surgimento dos serviços de streaming (seja de música ou televisão). Nesse sentido, é inegável que o ChatGPT se tornou uma tendência: em apenas dois meses, a ferramenta atingiu a impressionante marca de 100 milhões de usuários. É um recorde histórico, uma vez que nenhum outro produto digital jamais conseguiu um crescimento tão rápido.

O que está em jogo a partir de agora é a visão de uso da tecnologia do Google contra a visão de uso trazida pela Microsoft, principal investidora e beneficiária da OpenAI e, consequentemente, das benesses do ChatGPT. São duas empresas lutando entre si, mas já é possível distinguir um vencedor nisso tudo: a Inteligência Artificial. Independente do modelo adotado, essa tecnologia não vai mais embora.

Primeiro Round

No começo de fevereiro, foi travada a primeira batalha do que promete ser uma guerra furiosa. Em um dia, o Google anunciou Bard, um sistema de busca e conversação baseado nos algoritmos de modelo de linguagem LaMDA. Em menos de vinte e quatro horas, a Microsoft anunciou a integração do seu mecanismo de busca Bing com o ChatGPT. Era evidente para quem acompanhou os anúncios que houve uma corrida desesperada para largar na frente.

Entretanto, essa batalha estava em planejamento por anos. Satya Nadella, CEO do Google, em seu comunicado oficial, fez questão de nos lembrar que a empresa não estava para trás nessa tecnologia (grifo por nossa conta):

AI é a tecnologia mais profunda em que estamos trabalhando hoje. Seja ajudando os médicos a detectar doenças mais cedo ou permitindo que as pessoas acessem informações em seu próprio idioma, a IA ajuda pessoas, empresas e comunidades a liberar seu potencial. E abre novas oportunidades que podem melhorar significativamente bilhões de vidas. É por isso que reorientamos a empresa em torno da IA seis anos atrás.

Satya Nadella

É uma afirmação que não traz nada de inverídico. De veículos autônomos a IAs capazes de descobrir planetas ou combater o câncer de mama, o Google, de fato investiu pesado para alavancar esse ecossistema.

Todavia, como a própria Microsoft pode testemunhar, pioneirismo em qualquer segmento não é garantia de hegemonia. Enquanto o Google era uma referência em laboratórios e universidades com seus progressos no campo de aprendizado de máquina, a OpenAI estava trazendo os holofotes para si, tirando a Inteligência Artificial dos porões científicos para o grande público. E toda tendência eclode quando o consumidor final desperta.

Simultaneamente, o Google veio colhendo nos últimos doze meses frutos indesejados de seus esforços em Inteligência Artificial. A tola confusão envolvendo o nível de “consciência” de LaMDA criou um estigma sobre a empresa, um reflexo do que a Microsoft já havia colhido muitos anos antes com a finada Tay. O tempo passou, a memória do público se apagou, e a gigante de Redmond está livre das consequências duradouras de seu equívoco original.

E então o Google cometeu um erro amadorístico na apresentação do Bard. Em um dos vídeos promocionais da ferramenta, o algoritmo devolve um erro factual. Não houve qualquer checagem por parte do Google, sejam seus engenheiros ou o time de marketing responsável pela peça. A percepção do público foi clara: Bard comete falhas. O resultado também foi claro: queda nas ações da Alphabet e perda de 100 bilhões de dólares em valores de mercado.

Esse primeiro round deu vitória inequívoca para a Microsoft, por esse conjunto de circunstâncias que pouco ou nada tem a ver com a eficiência de suas soluções. Toda Inteligência Artificial geracional baseada em largos modelos de dados comete erros fatuais. Entretanto, por serem tão articuladas na criação de textos, acabam emprestando credibilidade a informações incorretas. Essa falha, batizada de “alucinação”, existe no Bard e também existe no ChatGPT. Porém, qual deles ficou com a má fama?

Da mesma forma, os impactos negativos do advento desse tipo de ferramenta também estão presentes nos dois lados dessa disputa. O ChatGPT não é mais puro ou menos ameaçador que seu rival: em 2019, a OpenAI tinha profundos receios de disponibilizar publicamente um algoritmo que dada uma inserção de tópicos, seria capaz de criar, em fração de segundos, um texto coeso e convincente sobre aquele assunto, mesmo que seja baseado em fatos inverídicos. Parece familiar? David Luan, então vice-presidente de Engenharia da OpenAI, declarou textualmente: “alguém com intenção maliciosa seria capaz de gerar fake news de alta qualidade”. O que mudou de 2019 para cá, para o agora batizado ChatGPT ter até API pública? David Luan saiu da OpenAI para trabalhar no Google.

Gary Marcus, crítico ferrenho do impacto das Inteligências Artificiais, sintetizou com perfeição o primeiro choque entre Google e Microsoft nesse campo:

As duas megaempresas apresentaram protótipos de demonstração, nenhum deles totalmente pronto para uso público, construído em torno de tecnologia aparentemente comparável, enfrentando bugs aparentemente semelhantes, com um dia de diferença. No entanto, uma demonstração foi apresentada como uma revolução, a outra como um desastre.

Gary Marcus

Consequências

E por que motivo existe essa batalha pela Inteligência Artificial? Para a Microsoft, é um novo front. A empresa não tem medo de experimentar novidades. Depois de ter perdido o início da febre da internet e ser constantemente alvo de chacotas por esse erro, a gigante de Redmond decidiu atirar para todos os lados, sem exceção. Foi por isso que nas últimas duas décadas nós vimos a Microsoft investindo em Realidade Aumentada, em jogos eletrônicos, em computação na nuvem, em SaaS, até mesmo em dispositivos móveis. Embora a empresa não tenha sido bem-sucedida em todos os segmentos, houve múltiplas tentativas para tentar se inserir na próxima tendência.

Para o Google, a questão é simples: sobrevivência. Seis anos atrás, a empresa migrou seu foco para Inteligência Artificial. Ao mesmo tempo, sua liderança no mercado de buscas e publicidade manteve as engrenagens funcionando. Para fins de comparação, o Google faturou 224 bilhões de dólares em publicidade em 2022, contra somente 18 bilhões de dólares contabilizados pela Microsoft. E, agora, em questão de meses, a Microsoft tem um produto concorrente que pode suplantar o Google tanto no campo das IAs como no campo da busca. Essa é a primeira vez em duas décadas que a supremacia do Google em buscadores está sendo genuinamente ameaçada, não por uma busca melhor, mas por um produto que torna o próprio processo de busca obsoleto.

Tradicionalmente, ferramentas de busca interpretavam a consulta do usuário e ofereciam uma lista de links que poderiam solucionar seus problemas ou oferecer respostas. De uns tempos para cá, o Google passou a oferecer fragmentos de informação na própria tela de resultados, agilizando o processo. Porém, o que está na mesa agora são sistemas muito mais avançados, com respostas completas, não simples orientações.

Não é uma novidade. Em 2011, Eric Schmidt, um dos fundadores do Google, já afirmava seus planos para o futuro:

Estamos tentando passar de respostas baseadas em links para respostas baseadas em algoritmos, onde podemos realmente calcular a resposta certa. E agora temos tecnologia de inteligência artificial suficiente e escala suficiente e assim por diante que podemos, por exemplo, dar a você – literalmente computar a resposta certa.

Eric Schmidt

Para os produtores de conteúdo em páginas da web, tudo isso significa declínio de tráfego. É um apocalipse surgindo no horizonte, mas não um que iremos abordar nesse artigo. O problema para o Google é que essa queda de tráfego implica em uma queda de exibição de anúncios. A empresa precisa dominar a ferramenta de busca em si, para exibir, pelo menos em sua própria página principal, a propaganda que irá sustentar seu modelo de negócios. Entretanto, se o Bing com o ChatGPT conseguir capturar uma fatia maior de mercado, a receita do Google será reduzida de forma ainda mais drástica.

O cenário futuro se torna ainda mais complexo quando fatoramos a penetração do Google no mercado de dispositivos móveis e navegadores. Apesar dessa vantagem, nada impede que os usuários adotem o Bing como ferramenta diária, uma vez que seu uso independe de plataformas ou navegadores. A complexidade só aumenta quando também colocamos na equação o custo operacional elevadíssimo de recursos de Inteligência Artificial contra uma busca tradicional. John Hennessy, diretor da Alphabet, admitiu para a Reuters que os custos sobem dez vezes, quando se fala de algoritmos com modelos de linguagem largos.

Diante de todos os fatos apresentados, é prematuro afirmar que essa ou aquela empresa irá triunfar na próxima década. Porém, não há dúvidas que estamos diante de uma mudança significativa de paradigmas. Uma nova revolução está diante de nossos olhos e, mais uma vez, o Google está no centro das atenções. Resta saber se ele sairá como vitorioso ou se chegou a hora do Google passar o bastão para frente.