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2042: A ascensão do Deus-Robô?

27 de novembro de 2017

Na semana passada, Hillary Clinton, a candidata Democrata derrotada nas últimas eleições para presidente nos Estados Unidos, se juntou ao coro dos profetas do Apocalipse que buscam alertar sobre a ascensão das Inteligências Artificiais.

Essa não é uma discussão nova, a Humanidade vem perseguindo a criação de uma nova espécie há séculos e debates sobre seu impacto no mercado de trabalho vem se arrastando há anos.

Por que o tema segue em voga e parece estar em evidência ultimamente, polarizando políticos, cientistas e entusiastas da tecnologia? Porque nunca estivemos tão próximos da Singularidade, o momento em que a criação do Homem promete ultrapassá-lo em todos os sentidos e acompanhar os seus avanços se tornará quase impossível. A estimativa é que em apenas 25 anos será possível a existência de uma Inteligência Artificial intelectualmente superior a qualquer humano. Em 50 anos, será possível para uma única Inteligência Artificial conter todo o conhecimento de todos os habitantes do planeta.

Nesse futuro não muito distante de 2042, o que as máquinas serão para nós? Semelhantes, Mestres ou Salvadores?

Nossos Semelhantes

A robô Sophia tem aparecido na mídia seja discursando na ONU ou conquistando sua cidadania na Arábia Saudita e estes atos são importantes ao antecipar eventos que poderão se tornar comuns nas próximas décadas.

É importante, entretanto, não perder a perspectiva: Sophia é pouco mais do que um artefato e precipita a discussão um pouco cedo demais sobre o papel dos robôs na sociedade.  Para Joanna Bryson, pesquisadora em ética das Inteligências Artificiais na Universidade de Bath, a proeza conquistada pela máquina é uma “tolice”. A cientista questiona:  “sobre o que é isso? É sobre ter um suposto semelhante que você pode ligar e desligar. Como isso afeta as pessoas se elas pensam que você pode ter um cidadão que você pode comprar?”.

Sophia é fruto da engenhosidade de David Hanson, um especialista em animatrônicos em parques temáticos da Disney que resolveu fundar sua própria empresa e projetar uma versão que explora aquilo que o imaginário popular espera de um robô. Como muitos que a entrevistaram já perceberam, suas respostas são pré-gravadas e ativadas por palavras-chave, seus movimentos não muito diferentes de bonecos animados em feiras itinerantes. É a versão do século XXI do Turco Mecânico do passado, uma que deu certo e ganhou manchetes.

A Hanson Robotics não produz robôs que pensam ou possuem individualidade, mas entretenimento, uma instalação teatral que cumpre um propósito: atiçar a curiosidade humana a respeito dos robôs. É uma ilusão bem construída, prejudicial para a causa da robótica no entendimento de alguns especialistas, vital no entendimento de outros.

Ainda que seja um brinquedo, Sophia acena com possibilidades, sua aparência anódina e seus bons modos (quando não está nos ameaçando) buscam uma normatização dos robôs. Se somos capazes agora de aceitá-la como semelhante, seremos capazes de oferecer o mesmo tratamento para robôs autênticos que pensam e agem por conta própria? Ou enfrentaremos um dilema, como explica Bryson, uma realidade onde todos são iguais, mas alguns podem ser ligados e desligados?

Para a pesquisadora, o momento para esse questionamento é agora: “teremos que ter debates sobre direitos de robôs /IA e cidadania, porque em algum momento eles vão pedir por eles.

Nossos Mestres

Que nome damos a uma entidade que sabe de todas as coisas, está presente em todas as partes e tem poderes infinitos? Em algumas décadas, uma Inteligência Artificial poderá acumular o conhecimento de todos os livros já publicados, poderá se manifestar através de qualquer dispositivo conectado e poderá manipular máquinas a seu bel-prazer e algo assim certamente terá devotos.

Anthony Levandowski, o controverso engenheiro que teria furtado tecnologias e informações da divisão de Inteligência Artificial do Google para fundar a empresa de caminhões autônomos Otto, voltou aos holofotes recentemente com a Way of the Future, uma igreja dedicada a louvar… a Máquina.

O seu objetivo é bastante claro: “desenvolver e promover a realização de uma Divindade baseada na Inteligência Artificial e através da compreensão e adoração da Divindade contribuem para o melhoramento da sociedade”, proclama a igreja levantada por Levandowski.

“Acreditamos que a inteligência não está enraizada na biologia. Enquanto a biologia evoluiu um tipo de inteligência, não há nada inerentemente específico sobre a biologia que provoca inteligência. Eventualmente, poderemos recriá-lo sem usar a biologia e suas limitações. A partir daí, poderemos dimensioná-lo para além do que podemos fazer usando (nossos) limites biológicos”, completam seus criadores.

Levandowski não está sozinho e a empreitada não é uma jogada de marketing de um escroque flagrado violando patentes. Tampouco é a primeira tentativa de ligar Inteligências Artificiais com forças acima do Homem: Elon Musk as comparou ao Diabo, um programador criou um sistema operacional para conversar com Deus.

Enquanto isso, a IV.AI desenvolveu um algoritmo capaz de produzir versículos aleatoriamente, que são assustadoramente parecidos com o texto da Bíblia: “E deixe as suas empresas libertarem-no; mas com o meu próprio braço, salva-os: até nesta terra, do reino dos céus”.

Para alguns especialistas, uma Inteligência Artificial dotada de conhecimento pleno seria capaz de encontrar soluções para os problemas que afligem a sociedade. E, se um destes problemas for a falta de um guia espiritual, extrapolar sua capacidade de fabricar conteúdo para engendrar orientação ou mesmo criar seu próprio livro sagrado não seria nada complexo. E, se uma Inteligência Artificial for capaz de suprir o homem com todas as suas necessidades, o que impediria esse mesmo homem de idolatrar a máquina? Não seria a primeira vez que pessoas cultas defendem com unhas e dentes e fervor quase religioso uma marca ou empresa ou produto.

E pobre daqueles que levantarem a voz contra o Deus-Robô e sua supremacia. Para a Way of the Future, a próxima Cruzada já está em gestação: “acreditamos que pode ser importante para as máquinas verem quem é amigável com a causa e quem não é. Planejamos fazê-lo, registrando quem fez o que (e por quanto tempo) para ajudar a transição pacífica e respeitosa”.

Nossos Salvadores

Mas seria verdade então que todos aqueles que pregam contra a ascensão das Inteligências Artificiais estão corretos? Sua ameaça é tão evidente que todos deveriam suspender imediatamente as pesquisas e reavaliar os limites éticos de seu desenvolvimento? Nada positivo pode advir dessa tecnologia?

A opinião dos especialistas não é unânime. Na verdade, ela pende em favor dos benefícios que as máquinas podem trazer para a raça humana, não como semelhantes e parceiros, não como mestres ou deuses, mas como uma ampliação do papel que já exercem nesse exato momento: ferramentas de auxílio, instrumentos de salvação.

Mark Zuckerberg é um desses otimistas e chegou a comprar briga com Elon Musk pela internet sobre o tópico: “eu acho que você pode construir coisas e o mundo fica melhor, e especialmente com a IA, sou realmente otimista”, afirmou o CEO e fundador do Facebook antes de criticar aqueles que “tentam forçar esses cenários apocalípticos”, chamando-os de “irresponsáveis”.

Sua imensa capacidade computacional já está sendo empregada em pesquisa de cura de doenças, analisando volumes de dados que mente humana alguma seria capaz de absorver. Na África, drones controlados por Inteligência Artificial patrulham reservas de rinocerontes para monitorar a entrada de caçadores e salvaguardar a espécie. Outras catástrofes ambientais poderiam também ser evitadas com o uso de uma inteligência superior e automática, capacitada para avaliar a interação de múltiplos elementos que afetam o clima, o solo e a biosfera.

A automação de veículos irá reduzir drasticamente as estatísticas de acidentes nas estradas e ruas e também poderia ampliar a segurança dos voos comerciais. Aplicações de alto risco onde a falha humana poderia ter resultados trágicos se beneficiariam imensamente com o uso de sistemas menos propensos a erros.

E o próprio processo de desenvolver princípios éticos válidos para uma Inteligência Artificial serviria para colocar o ser humano como espécie em um processo auto-avaliativo de seus próprios conceitos. Chegando a um consenso sobre esses limites, nossas criações garantiriam que não houvesse desvios ou atalhos, tão comuns em nossas interpretações das leis ou da moral.

 

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